Os dois primeiros frequentemente iniciam a reentrada.
Intensificação do Automatismo
Ocorrência: Em células com despolarização diastólica (nodos SA, AV e sistema His-Purkinje).
Aceleração (Aumento da inclinação da Fase 4):
Estimulação β-adrenérgica.
Hipopotassemia.
Estiramento mecânico.
Redução (Diminuição da inclinação da Fase 4 e Hiperpolarização):
Acetilcolina.
Automatismo Anormal: Células que normalmente não são marca-passo podem adquirir essa atividade (ex: células ventriculares na isquemia).
Consequência: Impulsos anormais excitando o coração podem levar a arritmias mais complexas e reentrada funcional.
Automatismo Desencadeado (Pós-Despolarizações)
Definição: Potencial de ação normal interrompido ou seguido por uma despolarização anormal. Se atinge o limiar, gera batimentos secundários anormais.
Tipos:
Pós-Despolarização Tardia (PDT):
Surgem após repolarização completa.
Causadas por sobrecarga intracelular de Ca2+ (isquemia, estresse adrenérgico, intoxicação digitálica, IC).
Ca2+ é expelido via NCX, produzindo influxo de Na+ e despolarização.
Mais frequentes com frequência cardíaca rápida.
Responsáveis por taquicardia ventricular induzida por exercícios na TVPC congênita.
Pós-Despolarização Precoce (PDP):
Interrompe a Fase 3 da repolarização.
Ocorre quando o potencial de ação é notavelmente prolongado.
Mais comuns com frequência cardíaca baixa, K+ extracelular baixo, e uso de fármacos que prolongam a DPA.
Envolve correntes de influxo de Na+ ou Ca2+.
Podem causar Torsade de Pointes (taquicardia ventricular polimórfica com QT longo), especialmente em síndrome de QT longo congênita.
Reentrada – Conceito
Reentrada: Impulso cardíaco trafega por uma via para retornar e reativar seu local original, perpetuando a ativação rápida.
Requisitos:
Circuito anatômico ou funcional.
Condução lenta em uma parte do circuito.
Heterogeneidade da refratariedade no circuito.
Reentrada – Tipos
Anatomicamente Definida:
Ex: Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW): Conexões acessórias entre átrio e ventrículo.
Um batimento prematuro pode bloquear na via acessória, propagar-se lentamente pelo nodo AV e sistema His-Purkinje, e reentrar no átrio pela via acessória quando esta não está mais refratária.
Fármacos que bloqueiam o nodo AV (ex: Ca2+ bloqueadores) podem interromper.
Outros exemplos: Taquicardia reentrante do nodo AV (TRNA), flutter atrial.
Tratamento Primário: Ablação por radiofrequência para eliminar o foco.
Funcionalmente Definida (“Círculo Condutor”):
Não há trajeto anatômico fixo.
Ex: Um batimento prematuro encontra tecido refratário em uma direção, propaga-se, e reexcita a área original quando esta recupera.
Fibrilação Ventricular (FV) e Atrial (FA): Exemplos extremos de reentrada funcional.
Células são reexcitadas assim que repolarizam o suficiente.
Leva a padrões desorganizados de ativação e perda da contratilidade coordenada.
Tratamento de FV: Cardioversão com corrente contínua (desfibrilação) é o melhor.
Fármacos Antiarrítmicos – Princípios Gerais
Ações Múltiplas: Quase invariavelmente, os fármacos têm múltiplos efeitos, e suas ações nas arritmias podem ser complexas.
Alvos Adicionais: Podem modular alvos além de seu modo de ação primário.
Personalização: A terapia deve ser ajustada ao mecanismo subjacente mais relevante da arritmia.
Mecanismos de Ação:
Suprimir o mecanismo de iniciação.
Alterar o circuito reentrante.
Cuidado: Podem eliminar o iniciador, mas promover reentrada.
Modulação dos Ritmos Automáticos
Fármacos Antiarrítmicos: Tornam mais lentos os ritmos automáticos alterando os determinantes da descarga marca-passo espontânea:
Redução da inclinação da fase 4: (Ex: β-bloqueadores).
Aumento do potencial limiar: (Ex: Bloqueadores de canais de Na+ ou Ca2+).
Aumento do potencial diastólico máximo: (Ex: Adenosina, acetilcolina).
Aumento da Duração do Potencial de Ação (DPA): (Ex: Bloqueadores de canais de K+).
Supressão das Pós-Despolarizações (PDT e PDP)
Dois Mecanismos Principais:
Inibição do desenvolvimento das pós-despolarizações:
PDT induzidas por digitálicos: Verapamil (reduz influxo de Ca2+, diminui carga de Ca2+ no RS).
PDP: Podem ser inibidas pelo encurtamento da DPA (acelerar FC com isoproterenol ou marca-passo).
Interferência nas correntes de influxo:
PDT induzidas por digitálicos: Quinidina (bloqueia canais de Na+, elevando potencial necessário).
PDP: Mg2+ pode inibir batimentos desencadeados (mecanismo não bem compreendido).
Torsade de Pointes (QT longo congênito):
Estresse adrenérgico pode desencadear.
Tratamento: β-bloqueio, instalação de marca-passo.
Aumento da Refratariedade
Bloqueadores dos Canais de Na+:
Deslocam a dependência de recuperação da inativação para potenciais mais negativos.
Prolongam a refratariedade (Fig. 29-11A).
Fármacos que Prolongam o DPA:
Sem ação direta nos canais de Na+ (ex: bloqueadores das correntes de repolarização tardias).
Retardam o momento em que os canais de Na+ recuperam da inativação (Fig. 29-11B).
Outros:
Bloqueio do canal de Ca2+ prolonga refratariedade em tecidos sinoatrial ou nodo AV.
Fármacos que interferem no acoplamento célula a célula (ex: amiodarona em tecidos doentes).
Aceleração da Condução Lenta: (Ex: Lidocaína) também pode inibir reentrada.
Bloqueio do Canal Iônico Dependente do Estado
Conceito Fundamental: Fármacos ligam-se a locais específicos nas proteínas do canal, modificando sua função.
Afinidade: Varia com as diferentes conformações funcionais (estados de repouso, aberto, inativado).
Canais de Na+:
Maioria dos fármacos úteis bloqueia canais nos estados aberto e/ou inativado.
Pouca afinidade pelos canais no estado de repouso.
Dissociação: Fármacos se dissociam no intervalo diastólico, cessando o bloqueio.
Dependência da Frequência:
Aumento da FC diminui o tempo disponível para dissociação.
Aumenta o bloqueio do canal de Na+ no estado de equilíbrio.
Dependência da Voltagem:
Células mais despolarizadas (ex: isquemia) têm recuperação mais lenta do bloqueio.
Bloqueadores de Na+ deprimem a corrente de Na+ mais em tecidos isquêmicos.
Lidocaína: Recuperação muito curta (< 1s) → bloqueio substancial apenas em tecidos com impulsos rápidos ou isquêmicos.
Flecainida: Recuperação muito longa (> 10s) → alentecimento da condução mesmo em tecidos normais com frequências normais.
Classificação dos Fármacos Antiarrítmicos (Visão Geral)
Esquema de Vaughan Williams: Classifica fármacos por suas propriedades eletrofisiológicas (Classe I, II, III, IV).
Abordagem Alternativa: Classificar pelo mecanismo da arritmia e direcionar o tratamento.
Estrutura Genética: Nova abordagem para classificar a terapia.
Importante: Muitos fármacos exercem múltiplos efeitos, contribuindo para suas ações clínicas.
Bloqueio do Canal de Na+ (Detalhado)
Dependência: Crítica da frequência cardíaca, potencial de membrana e características físico-químicas do fármaco.
Efeitos:
Limiar de Excitabilidade: Diminui (necessária maior despolarização para abrir canais).
Marca-passo: Aumenta limiar do marca-passo.
Desfibrilação: Aumenta energia necessária para desfibrilar.
Condução: Diminui velocidade em tecidos não nodais.
Duração do QRS: Aumenta (ex: flecainida prolonga em ≥25%). Lidocaína só em FC muito rápidas.
Intervalo PR: Alguns fármacos (flecainida) prolongam. Quinidina pode encurtar (vagolítica).
DPA: Não afetada ou encurtada. Alguns prolongam DPA por outros mecanismos (ex: bloqueio de K+).
Mecanismos Antiarrítmicos:
Automatismo: Diminui automatismo (aumento do limiar, diminuição da inclinação da fase 4).
Atividade Desencadeada: Inibe PDTs e PDPs.
Reentrada: Pode diminuir a condução para extinguir a reentrada.
Refratariedade: Aumenta a refratariedade (desloca dependência de voltagem da recuperação da inativação para potenciais mais negativos).
Paradoxo: Alentecimento da condução pode exacerbar a reentrada.
Bloqueio da Corrente Tardia do Canal de Na+
LQT3 (Síndrome do QT Longo tipo 3): Caracterizada por atraso da corrente de influxo de Na+ (defeitos na inativação do canal).
Prolonga a DPA e predispõe à arritmia.
Tratamento: Fármacos com efeitos anestésicos locais (ex: mexiletina) bloqueiam essa corrente tardia.
Insuficiência Cardíaca: Modelos animais demonstram aumento da corrente de Na+ tardia.
Bloqueio tardio de Na+ é um candidato atraente para fármacos antiarrítmicos nesse contexto.
Outros Fármacos: Antagonistas β-adrenérgicos (propranolol) e ranolazina (antianginoso) preferencialmente inibem a corrente tardia de Na+.
Toxicidade dos Bloqueadores dos Canais de Na+
Principal Risco: Acentuado alentecimento da condução em circuitos reentrantes potenciais pode levar à toxicidade.
Exemplos:
Flutter Atrial: Bloqueadores de Na+ podem diminuir a frequência do flutter, mas se o nodo AV permitir condução 1:1, a frequência ventricular pode aumentar drasticamente (ex: de 150 para 220 bpm).
Comum com quinidina (vagolítica, aumenta condução AV), flecainida, propafenona.
Taquicardia Ventricular (pós-IM): Podem aumentar a frequência e gravidade dos episódios arrítmicos.
Paralisia Neuromuscular: Podem exacerbar a paralisia pela D-tubocurarina.
Conclusão: Exacerbação de arritmia por fármaco pode ser difícil de controlar.
Prolongamento do Potencial de Ação (Bloqueio de Canais de K+)
Mecanismo Principal: Bloqueio dos canais de K+ (também pode ocorrer por intensificação das correntes de influxo de Na+).
Ex: Ibutilida prolonga QT por intensificar corrente de influxo de Na+.
Efeitos:
Aumenta DPA, reduz automatismo normal.
Aumento do intervalo QT.
Aumenta a refratariedade (modo eficaz de tratar reentrada).
Benefícios Experimentais:
Menos energia para desfibrilação.
Inibição da fibrilação ventricular por isquemia.
Aumento da contratilidade.
Fármacos: Muitos bloqueadores de K+ interagem com receptores β-adrenérgicos (sotalol) ou outros canais (amiodarona, quinidina).
Fármacos "Puros": Dofetilida, ibutilida.
Toxicidade dos Fármacos que Prolongam o Intervalo QT
Principal Risco:Torsade de Pointes (TV polimórfica com QT longo).
Ocorre quando o prolongamento do QT é desproporcional em FC lentas.
Pode ocorrer com fármacos antiarrítmicos e não cardíacos (ex: eritromicina, antipsicóticos, antieméticos).
Importância: Reconhecimento do risco levou à retirada de fármacos do mercado.
Fatores de Risco: Hormônios sexuais (mulheres mais suscetíveis).
Bloqueio do Canal de Ca2+
Efeitos Principais: Ocorrem em tecidos nodais.
Diidropiridinas (ex: Nifedipino): Bloqueiam preferencialmente canais de Ca2+ do músculo liso vascular (efeitos cardíacos são reflexos).
Verapamil, Diltiazem, Bepridil: Bloqueiam canais de Ca2+ das células cardíacas.
Frequência Cardíaca: Reduzem (podem ter taquicardia reflexa se hipotensão acentuada).
Intervalo PR: Aumenta (diminuição da condução AV).
Nodo AV: Aumenta refratariedade e condução decremental.
Ações Antiarrítmicas:
Úteis em arritmias reentrantes que envolvem o nodo AV (ex: taquicardia reentrante AV).
Redução da frequência ventricular no flutter ou fibrilação atrial.
Formas raras de TV mediadas por PDT (verapamil).
Uso: Verapamil e diltiazem IV para conversão rápida de TSVP, controle temporário da FC em FA/flutter. Oral para controle crônico e profilaxia de TSVP.
Bepridil: Aumenta DPA (efeito nos átrios/ventrículos), mas risco de Torsade de Pointes (abandonado nos EUA).
Toxicidade dos Bloqueadores dos Canais de Ca2+
Verapamil e Diltiazem:
Hipotensão: Principal efeito adverso (especialmente IV em bolo). Piora se usado inadvertidamente em TV. Piora com outros vasodilatadores ou disfunção VE.
Bradicardia Sinusal/Bloqueio AV: Especialmente em pacientes suscetíveis (ex: com β-bloqueadores).
Constipação: Com uso oral de verapamil.
Considerações:
Verapamil é um racemato (L-verapamil mais potente, mas metabolizado no fígado).
Diltiazem também sofre metabolismo hepático de primeira passagem.
Efeitos adversos dependem da doença cardíaca subjacente e tratamentos concomitantes.
Podem aumentar concentração sérica de digoxina.
Bloqueio dos Receptores β-Adrenérgicos
Efeitos da Estimulação β-Adrenérgica:
Aumenta corrente de Ca2+, retarda inativação.
Aumenta correntes de K+ e Cl- de repolarização.
Aumenta corrente marca-passo (acelera FC sinusal).
Aumenta Ca2+ armazenado no RS (maior probabilidade de liberação espontânea e PDT).
Pode intensificar arritmias mediadas por PDT e PDP.
Epinefrina plasmática alta (estresse) diminui K+ sérico.
Ação dos β-Bloqueadores:
Inibem esses efeitos da estimulação β-adrenérgica.
Reduzem FC, diminuem sobrecarga intracelular de Ca2+, inibem automatismo mediado por pós-despolarizações.
Aumentam energia necessária para fibrilar o coração (ação antiarrítmica).
Restaurar e manter ritmo sinusal (quinidina, flecainida, amiodarona).
Não tratar (se assintomático).
Cuidado com WPW e FA: Fármacos que bloqueiam o nodo AV podem acelerar a resposta ventricular via via acessória, com risco de morte.
Avaliação Pré-Tratamento: Frequência e reprodutibilidade da arritmia.
Minimização de Riscos
Fármacos Antiarrítmicos Podem Causar Arritmias:
Risco conhecido de proarritmia (Quadro 29-1 no documento original).
Reconhecer arritmias induzidas por fármacos é crucial (retirar o agente causal).
Ex: Tratar TV com verapamil (ineficaz) pode causar colapso cardiovascular.
Monitoramento da Concentração Plasmática:
Pode minimizar alguns efeitos adversos (ajustar dose para faixa terapêutica).
Muitas reações graves estão ligadas a interações, distúrbios eletrolíticos, isquemia, e doença cardíaca subjacente.
Contraindicações Específicas para o Paciente:
Evitar certos fármacos em subconjuntos de pacientes (ex: disopiramida em IC, amiodarona em doença pulmonar avançada). (Quadro 29-4 no documento original).
Eletrofisiologia Cardíaca como "Alvo Móvel":
Varia dinamicamente com influências externas (tônus autônomo, isquemia, estiramento miocárdico).
Isquemia: Altera K+ extracelular, inativa canais de Na+, diminui condução, ativa canais quiescentes.
Essas alterações podem criar arritmias ou modificar a resposta ao tratamento.
Adenosina
Natureza: Nucleosídeo de ocorrência natural.
Uso: Bolo IV rápido para fim imediato de arritmias supraventriculares reentrantes.
Mecanismo:
Ativa receptores de adenosina acoplados à proteína G.
Ativa corrente de K+ (sensível à acetilcolina) no átrio, nodos SA e AV.
Encurta potencial de ação, hiperpolariza, alentece automatismo.
Inibe efeitos eletrofisiológicos do aumento de AMP cíclico (estimulação simpática) → reduz correntes de Ca2+.
Aumenta refratariedade do nodo AV, inibe PDTs evocadas por estimulação simpática.
Farmacocinética:
Meia-vida de segundos.
Eliminada por captação e metabolismo rápido.
Requer administração IV rápida (acesso central ideal).
Potencializada por dipiridamol, hipersensibilidade por denervação (transplantes).
Metilxantinas (teofilina, cafeína) bloqueiam receptores de adenosina.