Entrelaçamentos psíquicos e corporais na psicossomática
Kátia Tarouquella Brasil & Francisco Moacir Catunda Martins Apresentação: Andréa M. M. Dias
Introdução
O artigo propõe um diálogo entre corpo e psiquismo na clínica psicossomática, a partir de um caso clínico de psoríase.
Objetivo: compreender como o corpo adoece quando o psiquismo não consegue simbolizar o sofrimento, revelando a fragilidade do corpo pulsional.
O corpo é pensado como um campo de inscrição do sofrimento
“Quando a palavra falha, o corpo fala.” (Brasil & Martins, 2020, p. 165)
Contextualização do caso
Lia Gomes, 40 anos, casada, mãe de três filhos.
Dificuldade com aparência e sofrimento pela psoríase.
Psoríase desde a adolescência; crises recorrentes.
Corpo sujo, duro, prestes a estourar; “casca” protetora.
Melhora e recaídas conforme conflitos afetivos.
Dermatologia + psicoterapia (8 meses, HUB-UnB).
“É como se a minha pele gritasse o que eu não consigo dizer.” (Brasil & Martins, 2020, p. 166)
A pele, que deveria proteger, torna-se o lugar do sofrimento e o corpo é vivido como prisão e exposição.
“O corpo, aqui, é testemunha do trauma. A pele, como fronteira do eu, deixa de conter e passa a expor o sofrimento.”
Suporte teórico
A Escola de Paris (Marty, Fain, De M’Uzan) entende o adoecimento como falha na vida de pensamento. Brasil & Martins (2020) ampliam essa leitura com Anzieu e Dejours, pensando o corpo como lugar de experiência simbólica.
“A doença altera e desordena a vida do sujeito, revelando a fragilidade do corpo pulsional atingido em sua superfície: a pele.” (Brasil & Martins, 2020, p. 166)
“A doença deixa de ser só biológica — ela se torna uma linguagem. O corpo, nesse sentido, é atravessado pelo inconsciente.”
Corpo erógeno
🔹 Dejours: distingue o corpo biológico do corpo erógeno (investido pela libido).
"Quando o corpo erógeno não se constitui, ocorre o acidente somático — o corpo adoece, dizendo o que o psiquismo não simbolizou." (p. 167–168)
"O corpo biológico se impõe, e o adoecimento emerge como tentativa de simbolização.” (Brasil & Martins, 2020, p. 168)
Quando o psiquismo não consegue pensar o afeto, o corpo o escreve e essa escrita, por vezes, é a própria doença
A pele torna-se o lugar de inscrição do sofrimento, onde o corpo tenta dizer o que o eu não contém.
“Não sinto prazer em nada, nem quando a pele melhora.” (fala da paciente)
O Eu-pele é o invólucro psíquico que envolve, protege e contém o eu. Forma-se nas experiências iniciais de toque, cuidado e olhar. Quando falha, o corpo adoece como tentativa de simbolização.
“O Eu-pele é o limite entre o dentro e o fora, o lugar onde o corpo e o psiquismo se encontram.” (Brasil & Martins, 2020, p. 167)
“Na psoríase, o Eu-pele está rasgado — o corpo tenta costurar, na carne, o limite que o psiquismo perdeu."

A doença como linguagem
A doença é uma forma de expressão quando a palavra falha. O corpo fala o que o sujeito não consegue simbolizar.
“A doença altera e desordena a vida do sujeito, e é nesse desarranjo que o corpo revela a falha do pensamento.” (Brasil & Martins, 2020, p. 173)
🎨 Francis Bacon – Head VI (1949)

A Demanda na Clínica Psicossomática
Na psicossomática, a demanda não parte de um pedido simbólico. O corpo chega antes da palavra. O analista transforma o pedido de cura em espaço de fala e simbolização.
“A demanda do sujeito psicossomático não é dirigida ao analista, mas à cura do corpo. O trabalho clínico é transformar essa demanda em palavra.” (Brasil & Martins, 2020, p. 173)
Escuta do corpo na clínica
O analista escuta o sintoma como linguagem viva.
“Sem pretender domesticar o corpo, a clínica psicossomática propõe desvelar o corpo pulsional, desinvestido e marcado por lacunas preenchidas pela doença.” (Brasil & Martins, 2020, p. 169) “Quando eu falo da minha pele, parece que ela coça menos.” (fala da paciente)
O corpo começa a ser simbolizado: o dizer devolve contorno à experiência.

🎨 Imagem: Giacometti – L’Homme qui marche I (1960)
Transferência
A transferência funciona como novo invólucro. O vínculo possibilita reinvestimento libidinal no corpo.
“O trabalho clínico visa à reintegração do corpo à vida psíquica, restaurando o investimento libidinal e simbólico.” (Brasil & Martins, 2020, p. 170)
“Quando estou aqui, parece que minha pele me escuta também.” (fala da paciente)
🎨 Imagem: A escuta faz surgir o corpo que sente e deseja.”
O Trabalho Clínico
O corpo que encontra lugar na palavra (p.174–176)
O atendimento psicossomático é um processo de simbolização encarnada.
O analista ocupa o lugar de testemunha e continente da dor não simbolizada.
O corpo fala no tempo do silêncio, e o tratamento acompanha esse ritmo orgânico.
O sintoma não é eliminado, mas transformado em linguagem.
Cura = corpo que encontra sentido no discurso.
“O atendimento, sustentado na escuta e na presença do analista, possibilita que o corpo encontre um novo modo de inscrição psíquica.” (Brasil & Martins, 2020, p. 175)
O corpo como exigência de trabalho
Para Dejours, pensar é trabalhar o corpo vivido. O corpo impõe ao psiquismo uma tarefa de elaboração. A cura é o reencontro entre corpo e pensamento.
“O corpo, outrora despedaçado, reencontra-se na palavra e no vínculo.” (Brasil & Martins, 2020, p. 172)
Pensar é reelaborar o corpo. A clínica é o espaço onde o corpo e a palavra voltam a trabalhar juntos.”
O atendimento clínico de Lia
Descrição da aparência e vestimenta: Lia vestia-se sempre com roupas de mangas compridas, mesmo nos dias quentes. Parecia desinvestida da própria aparência, como se o tecido substituísse a pele ferida.
A roupa funciona como barreira protetora e defesa contra o olhar do outro, “uma segunda pele” (p. 174–176)
Fala de Lia
“É muito difícil administrar as lesões, até no sexo as coisas são difíceis. A pele tira meu prazer.
O A. (marido) é compreensivo, mas sem prazer eu sou só uma carne, eu me deixo usar. Eu tive um caso extraconjugal antes da crise, às vezes penso que se não tivesse toda machucada teria outras relações.
Era uma coisa suja."
"A psoríase é como uma casca, a pele está dura. Eu me olho no espelho e me sinto toda lesionada.” (Brasil & Martins, 2020, p. 175)
Compreensão da analista:
O relacionamento extraconjugal reativou o corpo erógeno — corpo do prazer, fora do registro do sofrimento.
Essa experiência solicitou um trabalho psíquico intenso, pois mobilizou o desejo e a vergonha simultaneamente.
Lia não conseguia habitar esse corpo erógeno: o prazer era vivido como algo “sujo”, imediatamente associado à casca da doença.
O corpo biológico (a pele) tomou o lugar do corpo erógeno, tornando-se prisão e denúncia.
Evolução clínica
As crises tornam-se menos intensas; o corpo passa a ser habitado e pensado.
“A doença deixa de ser o único modo de expressão, à medida que corpo e pensamento voltam a dialogar.” (Brasil & Martins, 2020, p. 172) “Quando eu falo, parece que a pele respira junto comigo.” (fala da paciente)
🎨 Imagem: FRIDA KALLO Árvore da Esperança, Mantenhase Firme (1946) (Tree of Hope, Remain Strong).

Fechamento e síntese
Corpo: lugar de simbolização e desejo. Doença: falha de elaboração psíquica. Tratamento: reintegrar corpo e linguagem. Cura: corpo que volta a pensar.
A escuta clínica permite que o corpo reencontre a palavra e o desejo. A cura não é a ausência da doença, mas o corpo que volta a simbolizar.
“A escuta do corpo é a escuta do sujeito em sua relação com o outro.” (Brasil & Martins, 2020, p. 177)

🎨 Gustav Klimt – O Beijo (1908)
Referências
Brasil, K. T., & Martins, F. M. C. (2020). Entrelaçamentos psíquicos e corporais na psicossomática. In K. T. Brasil (Org.), Que corpo é esse que anda sempre comigo? (pp. 165–177). Curitiba: Appris.
Dejours, C. (1986). O corpo, entre biologia e psicanálise. Petrópolis: Vozes.
Anzieu, D. (1989). O eu-pele. São Paulo: Casa do Psicólogo.
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