FARMACODINÂMICA

Mecanismos de Ação dos Fármacos

Donald K. Blumenthal e James C. Garrison

Introdução à Farmacodinâmica

  • Definição: Estudo dos efeitos bioquímicos e fisiológicos dos fármacos e seus mecanismos de ação.
  • Objetivo: Proporcionar bases para o uso terapêutico racional e o desenvolvimento de novos agentes mais eficazes.
  • Em Termos Simples: Refere-se aos efeitos de um fármaco no organismo.
  • Distinção com Farmacocinética:
    • Farmacodinâmica: O que o fármaco faz ao corpo.
    • Farmacocinética: O que o corpo faz ao fármaco (absorção, distribuição, metabolismo, excreção - ADME).
  • Previsibilidade de Efeitos: Conhecer mecanismos de ação, farmacocinética e interações ajuda a antecipar efeitos adversos e tóxicos.
  • Farmacogenética: Estudo das diferenças genéticas que alteram a farmacocinética e farmacodinâmica, explicando variações de resposta entre pacientes.

Conceitos Fundamentais da Farmacodinâmica

  • Interação com Macromoléculas: A maioria dos efeitos dos fármacos resulta da interação com componentes macromoleculares do organismo.
  • Receptor (Alvo Farmacológico):
    • A macromolécula (ou complexo macromolecular) com a qual o fármaco interage para produzir uma resposta celular (alteração da função celular).
    • Fármacos geralmente alteram a velocidade ou magnitude de uma resposta celular intrínseca, não criam reações novas.
    • Localização: Superfícies celulares ou compartimentos intracelulares (ex: núcleo).
  • Aceptores:
    • Componentes com os quais os fármacos interagem (ex: albumina sérica), mas que não causam diretamente alteração na resposta bioquímica ou fisiológica.
    • Podem alterar a farmacocinética do fármaco.
  • Natureza dos Receptores:
    • Principalmente proteínas (receptores de hormônios, fatores de crescimento, neurotransmissores, enzimas metabólicas, proteínas de transporte, glicoproteínas estruturais).
    • Ácidos Nucleicos (DNA): Alvos importantes para quimioterápicos no câncer e antivirais.

Receptores Fisiológicos: Agonistas e Antagonistas

  • Receptores Fisiológicos: Proteínas que normalmente atuam como receptores de ligantes reguladores endógenos.
    • Evoluíram para reconhecer e responder seletivamente a moléculas sinalizadoras específicas.
  • Agonistas: Fármacos que se ligam a receptores fisiológicos e simulam os efeitos reguladores dos compostos sinalizadores endógenos.
    • Agonista Primário: Liga-se ao mesmo sítio de reconhecimento que o agonista endógeno (sítio primário ou ortostérico).
  • Antagonistas: Fármacos que bloqueiam ou reduzem a ação de um agonista.
    • Antagonismo Competitivo: Antagonista compete com o agonista pelo mesmo sítio de ligação (interação sintópica).
    • Antagonismo Alostérico: Antagonista interage com outro sítio do receptor, alterando a afinidade do agonista.
    • Antagonismo Químico: Antagonista combina-se com o agonista (não no receptor).
    • Antagonismo Funcional: Inibição indireta dos efeitos celulares/fisiológicos do agonista.
  • Agonistas Parciais: Compostos que mostram apenas eficácia parcial, independentemente da concentração. Podem comportar-se como antagonistas competitivos na presença de um agonista pleno.
  • Agonistas Inversos: Estabilizam o receptor em uma conformação inativa (reduzem a atividade constitutiva).

Especificidade do Fármaco

  • Afinidade: Força da interação reversível entre um fármaco e seu receptor.
    • Determinada pela estrutura química.
  • Atividade Intrínseca: Capacidade do fármaco de ativar o receptor e gerar uma resposta.
    • Também determinada pela estrutura química.
  • Especificidade Farmacológica: Fármaco que interage com apenas um tipo de receptor expresso em poucas células diferenciadas é altamente específico.
    • Ex: Ranitidina (antagonista H2 para úlceras).
  • Efeitos Generalizados: Se o receptor for expresso ubiquamente (em muitas células/tecidos), fármacos que atuam nele produzem efeitos amplos e potenciais efeitos adversos/tóxicos.
    • Ex: Digoxina (inibe Na+, K+-ATPase ubiquamente expressa), Metotrexato (inibe diidrofolato redutase), Lidocaína (bloqueador de canais de Na+).
  • Especificidade Ampla: Muitos fármacos importantes interagem com vários receptores em diversos tecidos.
    • Ex: Amiodarona (trata arritmias, mas com graves efeitos tóxicos devido a múltiplos alvos).
  • Estereoisômeros: Podem apresentar diferentes propriedades farmacodinâmicas (ex: sotalol, labetalol).

Fatores que Modificam as Ações dos Fármacos

  • Administração Curta vs. Longa:
    • Hiporregulação/Dessensibilização: Administração prolongada de um fármaco pode reduzir a resposta dos receptores (downregulation).
      • Taquifilaxia: Dessensibilização rápida (ex: nitrovasodilatadores, agonistas β-adrenérgicos).
    • Tolerância: Redução da resposta ao longo do tempo. Pode ser farmacocinética (metabolismo acelerado) ou farmacodinâmica (alteração do receptor).
    • Resistência Farmacológica: Desenvolvimento de mecanismos que impedem o fármaco de alcançar seu receptor ou mutações que conferem resistência (ex: resistência microbiana, câncer).
  • Efeitos Não Mediados por Receptores Macromoleculares:
    • Neutralização de ácido gástrico por antiácidos.
    • Efeitos osmóticos (manitol).
    • Redução da absorção (colestiramina).
  • Agentes Anti-infecciosos: Alvos em receptores/processos essenciais para o patógeno, mas não para o hospedeiro (ex: penicilina inibe síntese da parede bacteriana).
    • Problema: Desenvolvimento rápido de resistência.

Relação Estrutura-Atividade e Desenvolvimento de Fármacos

  • Bases Moleculares: Afidade e atividade intrínseca de um fármaco são determinadas por sua estrutura química.
    • Pequenas modificações podem alterar significativamente as propriedades farmacológicas.
    • Ex: Isômeros ópticos (dl-hiosciamina).
  • Desenvolvimento de Novos Agentes:
    • A análise da relação estrutura-atividade levou à síntese de muitos agentes terapêuticos valiosos.
    • Modificações Estruturais: Podem levar a melhor relação terapêutica/efeitos adversos, maior seletividade ou farmacocinética aprimorada.
    • Ex: Fosfato de fosfenitoína (pró-fármaco mais solúvel).
  • Tecnologia Moderna:
    • Modelagem Molecular e Análise Computadorizada: Identificação de farmacóforos (propriedades químicas necessárias para ação ideal).
    • Cristalografia de Raios X: Esclarecimento de estruturas de receptores e complexos fármaco-receptor.
    • Farmacogenética: Amplia o conhecimento sobre receptores e variação individual, permitindo diagnóstico molecular e otimização de tratamento.

Aspectos Quantitativos das Interações Fármaco-Receptor

  • Teoria de Ocupação dos Receptores:
    • A resposta é gerada por um receptor ocupado por um fármaco.
    • Base para a lei de ação das massas.
  • Curva de Dose-Resposta (ou Concentração-Resposta):
    • Representa o efeito observado do fármaco em função de sua concentração no compartimento do receptor.
    • Formato Sigmoide: Quando plotada semilogaritmicamente (Figura 3-2 do documento).
    • Demonstra: Limiar, inclinação e assíntota máxima (quantificam a atividade do fármaco).
  • EC50 (Concentração Eficaz 50%): Concentração do fármaco que produz 50% da resposta máxima. Quantifica a atividade.
  • Hormese: Relações em forma de "U" onde fármacos estimulam respostas em doses baixas e inibem em doses altas.
  • Interação Fármaco-Receptor:
    • Ligação do fármaco ao receptor (L + R ⇌ LR).
    • Geração da resposta (LR → LR*).
    • Afinidade: Determinada pela taxa de associação (k+1) e dissociação (k-1).
    • Constante de Dissociação (KD): [L][R]/[LR]. Um KD baixo indica alta afinidade.

Potência e Eficácia

  • Potência:
    • Medida pela EC50.
    • O fármaco cuja curva de dose-resposta está mais à esquerda (menor EC50) é mais potente (Figura 3-3A).
    • Função mista de afinidade e eficácia.
  • Eficácia:
    • Capacidade de um fármaco ativar um receptor e gerar uma resposta celular.
    • Determinada pela resposta máxima que o fármaco pode produzir (assíntota máxima) (Figura 3-3B).
    • Agonista pleno: Produz resposta máxima.
    • Agonista parcial: Não produz resposta máxima, mesmo em altas concentrações.
    • Antagonista: Liga-se ao receptor, mas tem eficácia nula.
  • Ocupação do Receptor: A relação KD descreve apenas a ocupação do receptor. A resposta final geralmente é amplificada pela célula (resposta plena pode ocorrer com ocupação parcial).

Quantificação do Antagonismo

  • Antagonismo Competitivo Direto (Reversível):
    • Fármaco com afinidade, mas sem eficácia, compete com o agonista.
    • Efeito: Desvio da curva de dose-resposta do agonista para a direita (aumenta a EC50), sem alteração da resposta máxima.
    • Magnitude do desvio depende da concentração e afinidade do antagonista (Equação de Schild).
    • Agonistas parciais podem atuar como antagonistas competitivos de um agonista pleno.
  • Antagonismo Pseudoirreversível:
    • Antagonista se dissocia lentamente do receptor.
    • Efeito: Desvio para a direita da curva de dose-resposta do agonista com redução da resposta máxima.
    • Ex: Buprenorfina (agonista opioide parcial), anlodipino (bloqueador de Ca2+).
  • Antagonismo Irreversível:
    • Antagonista se liga covalentemente ao receptor.
    • Efeito: Semelhante ao pseudoirreversível (redução da resposta máxima).
    • Ex: Fenoxibenzamina (α-adrenérgico), DFP (inibidor de acetilcolinesterase).
  • Antagonismo Alostérico (ou Alotópico):
    • Antagonista liga-se a um sítio diferente do agonista primário.
    • Efeito: Reduz a afinidade do receptor pelo agonista (reduz a resposta máxima do agonista).
  • Potencialização Alostérica:
    • Fármaco liga-se a um sítio alostérico e potencializa os efeitos dos agonistas primários.

Variabilidade Farmacodinâmica: Individual e Populacional

  • Variação da Resposta: Indivíduos variam na magnitude da resposta à mesma concentração de fármaco.
  • Fatores Determinantes:
    • Genética: Diferenças genéticas alteram a farmacocinética e farmacodinâmica. Ex: Varfarina (CYP2C9, VKORC1).
    • Idade.
    • Comorbidades: Doenças (disfunção renal/hepática).
    • Outros Fármacos Administrados: Interações farmacocinéticas e farmacodinâmicas.
    • Estado Funcional do Sistema Objetivado.
    • Desenvolvimento de Tolerância e Dessensibilização.
    • Efeitos Placebo.
    • Erros de Medicação, Adesão do Paciente.
  • Índice Terapêutico (IT): Razão entre a dose letal mediana (LD50) e a dose eficaz mediana (ED50) (LD50/ED50).
    • Indicador da seletividade do fármaco para produzir efeitos desejáveis vs. tóxicos.
  • Janela Terapêutica: Faixa de concentrações do fármaco que produz eficácia terapêutica com efeitos tóxicos mínimos.
    • Pode ser estreita (ex: varfarina).
  • Complexidade: Curvas de eficácia e toxicidade não são necessariamente paralelas. Nenhum fármaco produz um único efeito.

Interações Farmacodinâmicas no Contexto Pluricelular

  • Contexto Fisiopatológico: As interações entre ligantes fisiológicos e fármacos ocorrem em sistemas biológicos complexos.
  • Exemplo: Parede Vascular da Arteríola:
    • Envolve múltiplos tipos celulares (músculo liso vascular - SMC, células endoteliais - ECs, plaquetas, neurônios simpáticos).
    • Múltiplos receptores e ligantes interagem:
      • Contração: Angiotensina II (AngII), Norepinefrina (NE).
      • Relaxamento: Óxido Nítrico (NO), Peptídeo Natriurético tipo B (BNP), Epinefrina.
    • Sistemas de Sinalização: Ca2+, AMPc, GMPc.
  • Hipertensão: O tônus da SMC pode estar elevado por alterações nos ligantes endógenos (AngII alta, NE alta, NO reduzido).
  • Tratamento Farmacológico da Hipertensão: Envolve múltiplos alvos para bloquear ou compensar alterações patológicas agudas e crônicas.
    • Antagonistas β-adrenérgicos, inibidores da renina, inibidores da ECA, bloqueadores do receptor AT1, bloqueadores α-adrenérgicos, nitroprusseto de sódio, bloqueadores de canais de Ca2+.
    • A escolha é complexa, considerando causas, efeitos adversos, eficácia individual e custo.

MECANISMOS DE AÇÃO DOS FÁRMACOS

  • 1. Receptores que Alteram as Concentrações dos Ligantes Endógenos:
    • Muitos fármacos atuam na síntese, armazenamento, liberação, transporte ou metabolismo de ligantes endógenos (neurotransmissores, hormônios, mediadores).
    • Exemplos:
      • Neurotransmissão Adrenérgica: α-metiltirosina (inibe síntese de NE), cocaína (bloqueia recaptação de NE), anfetamina (facilita liberação de NE), selegelina (inibe degradação de NE).
      • Mediadores Circulantes: Inibidores da ECA (peptídeos vasoativos), inibidores da ciclo-oxigenase (autacoides lipídicos).
  • 2. Receptores que Regulam o Equilíbrio Iônico:
    • Um pequeno número de fármacos atua alterando o equilíbrio iônico do sangue, urina e TGI.
    • Alvos: Bombas e transportadores iônicos.
    • Exemplos:
      • Diuréticos (furosemida, clorotiazida): Alteram transporte de Na+ nas células renais.
      • Inibidores da Bomba de Prótons (esomeprazol): Inibem H+,K+-ATPase nas células parietais do estômago.

Processos Celulares Ativados por Receptores Fisiológicos: Transdução de Sinais

  • Funções do Receptor:
    1. Ligação ao ligando.
    2. Propagação da mensagem (sinalização).
  • Domínios do Receptor:
    • Domínio de ligação do ligando: Geralmente extracelular.
    • Domínio efetor: Para propagar a mensagem.
  • Fármacos como Alvos: Fármacos podem atuar em qualquer domínio.
    • Ex: Antagonistas β-adrenérgicos (domínio de ligação do ligando).
    • Ex: Agentes antineoplásicos direcionados ao EGFR: Cetuximabe (liga-se ao domínio de ligação), Gefitinibe/Erlotinibe (bloqueiam domínio efetor intracelular).
  • Sistema Receptor-Efetor (Via de Transdução de Sinais): Receptor, alvo celular e moléculas intermediárias (transdutores).
  • Segundos Mensageiros: Moléculas pequenas (nucleotídeos cíclicos, inositol trifosfato, NO) ou íons (Ca2+) que propagam a informação.
    • Podem difundir-se e integrar vários sinais.
    • A difusão é limitada pela compartimentalização e proteínas estruturais/de ancoragem (ex: AKAPs).

Processos Celulares Ativados por Receptores Fisiológicos: Integração e Amplificação

  • Integração de Sinais: Receptores e proteínas associadas coordenam sinais de vários ligantes com a atividade celular.
    • Ex: AMPc e Ca2+ em miócitos cardíacos (ambos sinais contráteis positivos) vs. células musculares lisas (AMPc relaxa, Ca2+ contrai).
    • Interações funcionais podem ser sinérgicas, aditivas ou antagonistas.
  • Amplificação de Sinais: Receptores fisiológicos podem amplificar significativamente um sinal.
    • Ligantes estão em baixas concentrações, mas o sistema efetor contém enzimas que amplificam cataliticamente o sinal.
    • Exemplos:
      • Um agonista liga-se a um canal iônico → milhões de íons fluem por segundo.
      • Um fóton na rodopsina → amplificação de 10^6 vezes.
      • Um hormônio esteroide em receptor nuclear → transcrição de muitas cópias de mRNA → muitas cópias de proteína.

Famílias Estruturais e Funcionais dos Receptores Fisiológicos

  • Classificação: Em famílias funcionais, compartilhando estruturas moleculares e mecanismos bioquímicos.
  • Seis Famílias Principais:
    1. Receptores Acoplados às Proteínas G (GPCRs).
    2. Canais Iônicos.
    3. Enzimas Transmembrana (RTKs, GC acopladas à membrana).
    4. Não Enzimas Transmembrana (Receptores de Citocinas, TLRs).
    5. Receptores Nucleares.
    6. Enzimas Intracelulares (GC solúvel).
  • Número de Mecanismos Limitado: Permite que as células integrem sinais para produzir respostas aditivas, sequenciais, sinérgicas ou inibitórias.

Receptores Acoplados às Proteínas G (GPCRs)

  • Estrutura: Atravessam a membrana plasmática 7 vezes (sete α-hélices).
  • Prevalência: Mais de 800 GPCRs em humanos; metade dedicada à percepção sensorial.
    • Os demais regulam funções fisiológicas vitais (atividade neural, tônus muscular, metabolismo, função cardíaca, secreções glandulares).
  • Ligantes: Neurotransmissores (ACh, NE), aminas biogênicas, eicosanoides, lipídios sinalizadores, hormônios peptídicos, opioides, aminoácidos (GABA).
  • Importância Terapêutica: Alvos de talvez metade de todos os fármacos prescritos (excluindo antibióticos).
  • Subtipos de Receptores: Cada família inclui vários subtipos com diferentes seletividades a ligantes e distribuições teciduais.
    • Ex: α- e β-adrenérgicos diferem no acoplamento das proteínas G (Gi, Gs, Gq) e distribuição tecidual.
    • Desenvolvimento de fármacos seletivos para subtipos.
  • Dimerização do Receptor: GPCRs podem formar homo- e heterodímeros, alterando sua farmacologia e especificidade.

Proteínas G e Ativação

  • Proteínas G: Proteínas reguladoras heterotriméricas (α, β, γ) de ligação ao GTP.
    • Transdutores de sinais, transmitem a informação do receptor ativado para efetores.
  • Efetores Regulados: Adenililciclase, fosfolipase C, fosfodiesterase do GMP cíclico (PDE6), canais iônicos.
  • Estado Basal: Subunidade α ligada a GDP, complexo α-GDP:βγ acoplado ao receptor inativo.
  • Ativação: Agonista liga-se ao GPCR → mudança conformacional → subunidade α troca GDP por GTP.
    • Subunidade α-GTP e o dímero βγ se separam do receptor e se tornam moléculas sinalizadoras ativas.
  • Famílias de Subunidades α: Gs, Gi, Gq, G12/13, que se acoplam a diferentes efetores.
  • Inativação: A subunidade α hidrolisa GTP para GDP (atividade GTPase intrínseca, acelerada por proteínas RGS).
    • Complexo α-GDP:βγ recombina-se e retorna ao estado basal.

Segundos Mensageiros: AMP Cíclico (cAMP)

  • Síntese: Pela enzima adenililciclase (AC).
    • Estimulada por Gsα, inibida por Giα.
    • Existem 9 isoformas de AC ligadas à membrana e uma solúvel.
  • Alvos Principais do cAMP:
    1. Proteinocinase dependente do AMP cíclico (PKA): Holoenzima R2C2. cAMP liga-se às subunidades reguladoras (R), liberando as subunidades catalíticas (C) ativas.
      • PKA fosforila enzimas metabólicas, proteínas transportadoras, canais iônicos e fatores de transcrição (ex: CREB).
    2. Fatores de Permuta de Nucleotídeos Guanina (GEFs) regulados por cAMP (EPACs): Ativam GTPases pequenas (Rap1, Rap2).
      • Constituem outra via efetora do cAMP, que pode atuar independentemente ou cooperativamente com a PKA.
  • Outros Alvos: Canais iônicos controlados por nucleotídeos cíclicos, fosfodiesterases (PDEs), transportadores ABC.
  • Fosfodiesterases (PDEs): Hidrolisam cAMP e cGMP, interrompendo sua ação.
    • Superfamília com 11 subfamílias.
    • Alvos farmacológicos (ex: inibidores da PDE5 como sildenafila, para disfunção erétil e DPOC).

Segundos Mensageiros: GMP Cíclico (cGMP) e Ca2+

  • GMP Cíclico (cGMP):
    • Síntese: Por guanililciclases (GCs).
      • GCs Transmembrana: Receptores de peptídeos natriuréticos (ANP, BNP).
      • GCs Solúvel: Ativada por Óxido Nítrico (NO).
    • Alvos: Proteinocinase dependente do GMP cíclico (PKG), canais iônicos, PDEs moduladas por cGMP.
      • PKG fosforila substratos que levam a relaxamento do músculo liso vascular (vasodilatação).
  • Cálcio (Ca2+):
    • Mensageiro versátil: regula expressão gênica, contração, secreção, metabolismo.
    • Entrada na Célula: Canais de Ca2+ da membrana plasmática (volt-dependentes, TRP).
    • Liberação de Reservas Intracelulares (RE/RS):
      • Ativação da Fosfolipase C (PLC) por GPCRs (Gq/G11) ou RTKs.
      • PLC hidrolisa PIP2 em inositol-1,4,5-trifosfato (IP3) e diacilglicerol (DAG).
      • IP3 difunde-se e ativa o receptor de IP3 no RE, liberando Ca2+.
      • DAG ativa Proteinocinases C (PKCs).
    • Receptor de Rianodina (RyR): Principalmente em músculo cardíaco/esquelético, para liberação de Ca2+ induzida por Ca2+.
    • Remoção de Ca2+: Bombas de Ca2+ da membrana e SERCA (retículo sarcoplasmático).
    • Canais operados por reserva (SOC): Repõem reservas de Ca2+ do RE.

Canais Iônicos

  • Função: Reguladores dos fluxos iônicos passivos através da membrana plasmática, essenciais para células excitáveis e não excitáveis.
  • Classificação: Por mecanismo de abertura, arquitetura e íons que conduzem.
    1. Canais Controlados por Voltagem:
      • Ativados por despolarização da membrana.
      • Canais de Na+: Geram potenciais de ação rápidos (neurônios, músculos, coração). Alvos de anestésicos locais (lidocaína) e antiarrítmicos.
      • Canais de Ca2+: Iniciais de potencial de ação (células marca-passo), modulam duração. Alvos de bloqueadores de Ca2+ (nifedipino, verapamil, diltiazem) para angina, arritmias, hipertensão.
      • Canais de K+: Mais numerosos e diversos. Regulam potencial de repouso e repolarização. Mutações causam doenças (epilepsia, síndrome do QT longo).
    2. Canais Controlados por Ligando:
      • Ativados pela ligação de um ligando ao canal.
      • Neurotransmissores: Acetilcolina (nicotínico), glutamato (AMPA, NMDA, cainato), GABA, glicina.
      • Importância: Transmissão sináptica no SNC e SNP. Alvos de sedativos/hipnóticos (benzodiazepinas, barbitúricos).
      • Outros: Canais controlados por nucleotídeos cíclicos (HCN, CNG), receptores das sulfonilureias (SUR1) que regulam canais KATP.
    3. Canais de Potencial Receptor Transitório (TRP):
      • Superfamília ubiquamente expressa, diversa.
      • Funções sensoriais (dor, temperatura, tato, visão).
      • Alvos potenciais para fármacos.

Receptores Transmembrana Relacionados com Enzimas Intracelulares

  • Receptores de Tirosinocinases (RTKs):
    • Ex: Receptores de insulina, fatores de crescimento (EGF, PDGF, VEGF).
    • Estrutura: Polipeptídicas simples (exceto insulina), domínios extracelulares e intracelulares (com tirosinocinase intrínseca).
    • Ativação: Ligando → dimerização do receptor → autofosforilação das tirosinas → recrutamento de proteínas sinalizadoras com domínios SH2 (PLCγ, PI3K, Grb2).
    • Ativam vias como Ras-MAPK (proliferação celular).
    • Alvos importantes no tratamento do câncer (ex: imatinibe - inibe tirosinocinases desreguladas).
  • Via do Receptor JAK-STAT:
    • Receptores para citocinas (y-interferona) e hormônios (crescimento, prolactina).
    • Não têm atividade enzimática intrínseca.
    • Dimerização → recrutamento de tirosinocinases JAK → fosforilação de STATs → STATs migram para o núcleo e regulam transcrição.
  • Cinases Receptoras de Serina-Treonina:
    • Ex: Receptor do TGF-β.
    • Ativação: Ligando → dimerização → ativação da cinase do monômero tipo I → fosforilação de proteínas Smad → regulação gênica.
  • Receptores Tipo Toll (TLR):
    • Sinalização da imunidade inata (reconhecem produtos de patógenos).
    • Dimerização → recrutamento de proteínas adaptadoras (MyD88, IRAKs) → ativação de cinases (TAK1) → ativação de NF-κB → transcrição de genes pró-inflamatórios.
  • Receptores do TNF-α:
    • Mecanismo semelhante aos TLRs.
    • Trimerização → domínio da morte → proteínas adaptadoras (TRADD) → ativação de IKK → NF-κB → genes pró-inflamatórios.
    • Anticorpos monoclonais contra TNF-α (infliximabe, adalimumabe) usados em artrite reumatoide, doença de Crohn.

Receptores que Estimulam a Síntese do GMP Cíclico

  • Guanililciclases Transmembrana:
    • Receptores de peptídeos natriuréticos (ANP, BNP, CNP).
    • Estrutura: Domínio extracelular de ligação do ligando, domínio transmembrana, domínios intracelulares (semelhante a cinase, dimerização, GC C-terminal).
    • Ativação: Ligando → alteração conformacional → estimula atividade da guanililciclase → aumenta cGMP.
    • Ex: Nesiritida (BNP sintético) para insuficiência cardíaca.
  • Sintetase do NO (NOS) e Guanililciclase Solúvel:
    • Óxido Nítrico (NO): Sinal gasoso lábil, produzido por NOS (nNOS, eNOS, iNOS).
    • NO estimula fortemente a guanililciclase solúvel (sGC) → aumenta cGMP.
    • Efeitos do cGMP: Mediados principalmente por PKG, que causa vasodilatação por:
      • Inibição da liberação de Ca2+ por IP3.
      • Fosforilação de canais de Ca2+ voltagem-dependentes.
      • Recaptação mais rápida de Ca2+ no RS.
      • Abertura de canais de K+ ativados por Ca2+ (hiperpolarização).

Receptores Hormonais Nucleares e Fatores de Transcrição

  • Natureza: Superfamília de 48 membros que respondem a diversos ligantes (hormônios esteroides, tireóideos, vitamina D, ácidos graxos, biliares, lipídios).
  • Localização: Citoplasma (esteroides) ou núcleo (LXR, FXR).
  • Estrutura: Quatro domínios principais:
    • Domínio N-terminal (AF-1)
    • Domínio de ligação ao DNA (DBD) com dedos de zinco.
    • Região de articulação.
    • Domínio de acoplamento do ligando (LBD, AF-2).
  • Mecanismo:
    • Ligante liga-se ao LBD → alteração conformacional (hélice 12) → recrutamento de proteínas corriguladoras.
    • Atuam como dímeros (homo ou hetero) ligados a Elementos de Resposta Hormonal (HRE) no DNA.
    • Correguladores: Coativadores (SRC, CBP/p300) que recrutam enzimas modificadoras da cromatina; Corepressores (SMRT, NCor) que mantêm o DNA compactado e inibem transcrição.
  • Especificidade: A atividade depende do ligante, da proporção de coativadores/corressores e da célula.
    • Moduladores Seletivos de Receptores Estrogênicos (SERMs): Tamoxifeno e raloxifeno (agonista em alguns tecidos, antagonista em outros).

Apoptose (Morte Celular Programada)

  • Definição: Processo geneticamente programado de morte celular.
  • Características: Arredondamento, retração citoplasmática, condensação nuclear, formação de bolhas na membrana, exposição de fosfatidilserina (sinal para fagocitose por macrófagos).
  • Importância: Essencial para a renovação celular normal e envolvida em doenças (câncer, neurodegenerativas, autoimunes).
  • Mecanismo: Efetivado por caspases (proteases de cisteína, ativadas por sinais apoptóticos).
  • Duas Vias Sinalizadoras Principais:
    1. Via Externa (Extrínseca):
      • Ativada por ligantes externos (TNF, FAS, TRAIL) em seus receptores transmembrana.
      • Receptores dimerizam → recrutam proteínas adaptadoras (TRADD, FADD) → recrutamento e ativação da caspase 8 → ativação da caspase 3.
    2. Via Interna (Intrínseca):
      • Ativada por sinais como danos ao DNA ou proteínas malformadas (via p53).
      • Envolve membros pró-apoptóticos da família Bcl-2 (BAX, Bak) → destruição da membrana mitocondrial → liberação de citocromo c e SMAC.
      • Citocromo c + Apaf-1 + caspase 9 → ativação da caspase 3.
  • Caspase 3: Ativa as últimas etapas da apoptose (caspases 6 e 7), resultando em degradação de proteínas e fragmentação do DNA.

Dessensibilização e Regulação dos Receptores

  • Controles Homeostáticos: Receptores estão sujeitos a regulação (síntese, degradação, modificação covalente, relocalização).
  • Dessensibilização (Adaptação, Refratariedade, Hiporregulação):
    • Redução do efeito gerado por exposição contínua ou subsequente à mesma concentração de fármaco.
    • Ex: Taquifilaxia (nitrovasodilatadores, agonistas β-adrenérgicos).
    • Mecanismo: Fosforilação de GPCRs por cinases de receptores de proteínas G (GRKs) → ligação de arrestinas → desacoplamento da proteína G → sequestro/internalização do receptor.
  • Supersensibilidade:
    • Ocorre após redução crônica da estimulação do receptor (ex: após bloqueio prolongado por antagonistas β-adrenérgicos).
    • Pode resultar de resposta tecidual a condições patológicas (ex: isquemia cardíaca).
  • Doenças Resultantes da Disfunção de Receptores:
    • Perda de um receptor (ex: deficiência de receptor androgênico).
    • Disruptura em sistemas de sinalização mais abrangentes (ex: miastenia grave - depleção de receptores nicotínicos; diabetes resistente à insulina - depleção de receptores de insulina).
    • Expressão de receptores aberrantes (ex: produtos de oncogenes).

FARMACODINÂMICA

By jorge veras

FARMACODINÂMICA

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