MODULADORES DA COAGULAÇÃO SANGUÍNEA

Fármacos Anticoagulantes, Fibrinolíticos e Antiplaquetários

Jeffrey I. Weitz

Introdução e Visão Geral da Hemostasia

  • Sistemas Fisiológicos: Complexos e sofisticados, controlam a fluidez do sangue.
  • Equilíbrio Delicado: Entre coagulação e fibrinólise.
    • Impede trombose (formação de coágulos).
    • Impede hemorragias (sangramento excessivo).
  • Trombos: Agregados de plaquetas, fibrina e células vermelhas.
    • Podem se formar em artérias ou veias.
  • Fármacos Antitrombóticos: Visam etapas principais da formação do coágulo.
    • Antiplaquetários: Inibem ativação/agregação plaquetária.
    • Anticoagulantes: Atenuam a formação da fibrina.
    • Fibrinolíticos: Degradam a fibrina (trombolíticos).
  • Risco Comum: Todos os fármacos antitrombóticos aumentam o risco de sangramento.
    • A toxicidade é uma extensão dos efeitos terapêuticos.

Funções das Plaquetas, Coagulação Sanguínea e Fibrinólise

  • Hemostasia: Cessação da perda de sangue de um vaso lesado.
  • Etapas Iniciais:
    1. Adesão Plaquetária: Plaquetas aderem a macromoléculas no subendotélio exposto.
    2. Ativação Plaquetária: Plaquetas aderentes liberam substâncias que recrutam e ativam plaquetas próximas.
    3. Agregação Plaquetária: Plaquetas ativadas se agregam para formar o tampão hemostático primário.
  • Coagulação:
    1. Lesão na parede do vaso expõe Fator Tecidual (FT), iniciando o sistema de coagulação.
    2. Plaquetas ativadas fornecem superfície e fatores para a explosão de geração de trombina.
    3. Trombina (Fator IIa): Converte fibrinogênio em fibrina, que reforça o agregado plaquetário e o prende.
    4. Trombina também amplifica a ativação e agregação plaquetária.
  • Fibrinólise: Sistema que remove o coágulo à medida que a ferida cicatriza, restaurando a fluidez do sangue.

O Processo de Coagulação Sanguínea

  • Cascata de Ativação: Série de reações de ativação de zimogênios (proteínas precursoras inativas).
    • Um zimogênio é convertido em protease ativa por clivagem de ligações peptídicas.
    • Componentes de cada etapa: protease do estágio anterior, zimogênio, cofator proteico não enzimático, Ca2+, e uma superfície organizadora (plaquetas ativadas in vivo).
  • Produto Final: Trombina.
  • Conversão de Fibrinogênio em Fibrina:
    • Trombina libera fibrinopeptídeos A e B do fibrinogênio.
    • Monômeros de fibrina se ligam e formam um gel de fibrina.
    • Fator XIIIa: Catalisa ligações cruzadas covalentes entre monômeros de fibrina, aumentando a força do coágulo.
  • Fatores de Coagulação: Fatores II (protrombina), VII, IX, X, XI, XII e pré-calicreína.
    • Resíduos de γ-carboxiglutamato (Gla) são cruciais para ligação ao Ca2+ e atividade.
  • Cofatores Proteicos Não Enzimáticos:
    • Fatores V e VIII: Atuam na superfície de plaquetas ativadas, potencializando a ativação de outros fatores.
    • Fator Tecidual (FT): Inicia a coagulação na via extrínseca.
    • Cininogênio de alto peso molecular: Cofator que acelera ativação de fatores XII e XI.

Vias de Coagulação e Fibrinólise

  • Início da Coagulação: FT exposto nos locais de lesão inicia via extrínseca.
    • Pequena quantidade de Fator VIIa circulante se liga ao FT, ativando Fatores X e IX.
  • Via Intrínseca: Desencadeada in vitro por contato com superfícies carregadas negativamente.
    • Fator XII ativa Fator XI, que ativa Fator IX.
    • Fator IXa (acelerado pelo Fator VIIIa) ativa Fator X.
    • Complexo Fator IXa-Fator VIIIa é crucial para geração eficiente de trombina.
  • Fibrinólise: Sistema que dissolve a fibrina intravascular pela ação da plasmina.
    • Ativadores de Plasminogênio: Convertem plasminogênio inativo em plasmina ativa.
      • t-PA (ativador de plasminogênio tecidual): Principal em fibrinólise intravascular, liberado por células endoteliais.
      • u-PA (urocinase): Mais ativo em fibrinólise extravascular.
    • Plasmina: Degrada a fibrina.
    • Regulação: Inibidores do ativador do plasminogênio (IAP-1, IAP-2) e α2-antiplasmina.
      • A fibrina protege a plasmina da inibição por α2-antiplasmina.

Coagulação In Vitro e Mecanismos Anticoagulantes Naturais

  • Testes de Coagulação:
    • Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPa): Mede a via intrínseca e comum. Prolongado indica defeito na via intrínseca.
    • Tempo de Protrombina (TP): Mede a via extrínseca e comum. Prolongado indica defeito na via extrínseca.
    • Relação Normalizada Internacional (RNI): Padroniza o TP para monitoramento de varfarina.
  • Mecanismos Anticoagulantes Naturais (Endoteliais):
    • Óxido Nítrico e Prostaciclina (PGI2): Induzem vasodilatação, inibem ativação/agregação plaquetária.
    • Antitrombina: Proteína plasmática que inibe proteases da coagulação (Fator IIa, IXa, Xa).
      • Potencializada por heparan sulfato (na superfície endotelial).
    • Proteína C: Zimogênio ativado pela trombina ligada à trombomodulina (na superfície endotelial).
      • Proteína C ativada (com proteína S) degrada Fatores Va e VIIIa, subregulando a geração de trombina.
    • Inibidor da Via do Fator Tecidual (IVFT): Inibe o Fator Xa e o complexo Fator VIIa-FT.

ANTICOAGULANTES PARENTERAIS: Heparina e Derivados

  • Fármacos: Heparina, Heparinas de Baixo Peso Molecular (HBPMs), Fondaparinux.
  • Bioquímica da Heparina: Glicosaminoglicano encontrado em mastócitos.
    • Extraída da mucosa intestinal suína.
    • Unidades USP vs. Ensaio do Antifator Xa (harmonizados em 2009).
  • Derivados da Heparina:
    • HBPMs: Fragmentos de heparina (ex: daltaparina, enoxaparina, tinzaparina).
    • Fondaparinux: Análogo sintético de pentassacarídeo.

Comparação das Características da Heparina, HBPM e Fondaparinux

CARACTERÍSTICASHEPARINAHBPMFONDAPARINUX

Fonte Biológica Biológica Sintética
Peso molecular (Da) 15.000 5.000 1.500
Alvo Xa e IIa Xa e IIa Xa
Biodisponibilidade (%) 30 90 100
Meia-vida (h) 1 4 17
Excreção renal Não Sim Sim
Efeito antídoto Completo Parcial Nenhum
Trombocitopenia < 5% < 1% < 1%

Heparina e Derivados - Mecanismo de Ação 

  • Ação Indireta: Não possuem atividade anticoagulante intrínseca.
  • Potencialização da Antitrombina:
    • Ligam-se à antitrombina (AT), acelerando sua taxa de inibição de várias proteases da coagulação (principalmente trombina - Fator IIa, e Fator Xa).
    • Heparina: Liga-se à AT via sequência pentassacarídica específica, induzindo mudança conformacional. Atua como molde catalítico, ligando AT e trombina (necessita de pelo menos 18 unidades de sacarídeos). Inibe Fator Xa e trombina em extensão semelhante (proporção anti-Xa:anti-IIa de 1:1).
    • HBPMs: Induzem mudança conformacional na AT que acelera a inibição do Fator Xa. Moléculas menores não conseguem ligar AT e trombina simultaneamente. Maior atividade antifator Xa do que anti-IIa (proporção 3:1 a 2:1).
    • Fondaparinux: Apenas atividade antifator Xa, pois é pequeno demais para ligar AT e trombina.
  • Catalisadores: Heparina, HBPMs e fondaparinux se dissociam após formar complexos estáveis e catalisam outras moléculas de antitrombina.
  • Fator Plaquetário 4: Inativa a heparina. HBPMs e fondaparinux possuem menor afinidade, mantendo mais atividade próxima aos trombos.

Heparina e Derivados - Farmacocinética e Uso Clínico

  • Administração: Parenteral (não absorvidos via GI).
    • Heparina: Infusão IV contínua ou intermitente, ou SC. Ação imediata IV. Biodisponibilidade variável SC.
    • HBPMs e Fondaparinux: Absorção mais uniforme SC.
  • Meia-vida:
    • Heparina: Variável com a dose (1-5h). Depuração reticuloendotelial.
    • HBPMs (4-6h) e Fondaparinux (17h): Depurados predominantemente pelos rins.
      • Contraindicados em insuficiência renal grave (depuração de creatinina < 30 mL/min).
  • Uso Clínico:
    • Tratamento inicial de trombose venosa e embolia pulmonar (rápido início de ação).
    • Administrados por pelo menos 5 dias junto com varfarina (até a varfarina atingir efeito).
    • Angina instável, infarto agudo do miocárdio.
    • HBPMs/Fondaparinux: Vêm substituindo heparina IV pela conveniência (SC 1-2x/dia, doses fixas sem monitoramento de coagulação).
    • Heparina IV: Requer monitoramento frequente do TTPa (alvo: 2-3x o valor normal).
    • Angioplastia coronariana: Heparina e HBPMs (fondaparinux não usado por risco de trombose no cateter).
    • Cirurgia de revascularização cardiopulmonar: Heparina (neutralizável com protamina).
    • Gravidez: Heparina, HBPMs, fondaparinux não atravessam placenta.
    • Idraparinux: Derivado de longa ação (meia-vida 80h), semanal. Idrabiotaparinux (antídoto avidina).
  • Resistência à Heparina: Variação nas concentrações de proteínas de ligação à heparina ou aceleração da depuração.

Heparina e Derivados - Toxicidade e Antídotos

  • Sangramento: Principal efeito adverso (1-5% com heparina IV).
    • Revertido pela sulfato de protamina (polipeptídeos do esperma de salmão).
      • Liga-se à heparina, neutralizando-a. Dose: 1 mg protamina para cada 100 UI de heparina.
      • Reverte completamente a atividade anti-IIa das HBPMs, mas apenas parcialmente a anti-Xa.
      • Não tem efeito sobre o fondaparinux.
      • Pode causar reações anafiláticas e vasoconstrição pulmonar.
  • Trombocitopenia Induzida por Heparina (TIH):
    • Queda de plaquetas < 150.000/mL ou 50% em relação ao pré-tratamento (0,5% dos pacientes, 5-10 dias após início).
    • Pode levar a complicações trombóticas graves (venosas ou arteriais).
    • Causada por anticorpos IgG contra complexos heparina/Fator Plaquetário 4.
    • Tratamento: Interromper imediatamente heparina/HBPM. Usar anticoagulante alternativo (lepirudina, argatrobana, fondaparinux). Evitar HBPMs.
  • Outras Toxicidades:
    • Elevação discreta de transaminases hepáticas.
    • Osteoporose (com doses altas de heparina >20.000 UI/dia por 3-6 meses). Menor risco com HBPMs/fondaparinux.
    • Hiperpotassemia (inibição da síntese de aldosterona).

OUTROS ANTICOAGULANTES PARENTERAIS (Inibidores Diretos da Trombina)

  • Lepirudina:
    • Derivado recombinante da hirudina (inibidor direto da trombina da sanguessuga).
    • Liga-se ao sítio catalítico e de reconhecimento de substrato da trombina.
    • Uso: TIH.
    • Meia-vida 1,3h (renal). Cuidado em insuficiência renal. Não tem antídoto.
  • Desirudina:
    • Derivado recombinante da hirudina.
    • Uso: Profilaxia de TVP em cirurgia de substituição de quadril.
    • Eliminação renal, meia-vida 2h.
  • Bivalirudina:
    • Polipeptídeo sintético (20 aminoácidos), inibe diretamente a trombina.
    • Uso: Angioplastia coronariana (alternativa à heparina), incluindo pacientes com TIH.
    • Meia-vida 25 min (renal).
  • Argatrobana:
    • Composto sintético, liga-se reversivelmente ao sítio catalítico da trombina.
    • Uso: TIH.
    • Meia-vida 40-50 min. Metabolismo hepático (CYPs). Ajuste em insuficiência hepática.
  • Alfadrotrecogina:
    • Proteína C ativada humana recombinante. Inibe Fatores Va e VIIIa.
    • Uso: Sepse grave (reduz mortalidade).
    • Principal efeito adverso: Sangramento.
  • Antitrombina:
    • Antitrombina humana recombinante (produzida no leite de cabras).
    • Uso: Anticoagulante para pacientes com deficiência hereditária de antitrombina submetidos a cirurgia.

ANTICOAGULANTES ORAIS: Varfarina

  • História: Descoberta a partir de doença hemorrágica em gado (dicumarol). Varfarina sintetizada em 1948, reconhecida como terapêutico em 1951.
  • Química: Derivado da 4-hidroxicumarina.
  • Mecanismo de Ação (Figura 30-7): Antagonista da vitamina K.
    • Os Fatores II, VII, IX, X e as Proteínas C e S requerem γ-carboxilação de resíduos de glutamato para serem biologicamente ativos (ligação ao Ca2+).
    • Essa reação depende da vitamina K reduzida (hidroquinona).
    • A varfarina inibe a enzima vitamina K epóxido redutase (VKOR), que regenera a vitamina K reduzida a partir de seu epóxido oxidado.
    • Resulta em produção de fatores de coagulação subcarboxilados e inativos.
    • Não afeta moléculas já carboxiladas em circulação.
  • Início de Ação: Lento, depende das meias-vidas dos fatores de coagulação (Fator VII 6h, Fator II 50h). Efeito antitrombótico total após vários dias.

Varfarina - Farmacocinética e Farmacogenética

  • Absorção: Quase completa via oral. Detecção no plasma em 1h, picos em 2-8h.
  • Distribuição: 99% ligada a proteínas plasmáticas (albumina). Atravessa a placenta.
  • Biotransformação e Eliminação:
    • Mistura racêmica de enantiômeros R e S. S-varfarina (3-5x mais potente).
    • S-varfarina metabolizada principalmente pela CYP2C9.
    • Metabólitos inativos excretados na urina e fezes.
    • Meia-vida 25-60h (média 40h). Duração de ação 2-5 dias.
  • Polimorfismos Genéticos (Quadro 30-2):
    • CYP2C9: Variantes (*2 e *3) codificam enzima com atividade reduzida → maiores concentrações do fármaco → redução das exigências de dose.
    • VKORC1 (subunidade 1 da vitamina K epóxido redutase): Variantes afetam a suscetibilidade da enzima à inibição pela varfarina.
    • Ambos explicam grande parte da variabilidade na resposta e dose necessária.
    • FDA recomenda considerar doses menores em pacientes com essas variações.

Frequências dos Genótipos CYP2C9 e Haplótipos de VKORC1

GENÓTIPO/HAPLÓTIPO BRANCOS (FREQUÊNCIA %) AFRO-AMERICANOS (FREQUÊNCIA %) ASIÁTICOS (FREQUÊNCIA %) REDUÇÃO DA DOSE COMPARADA COM O TIPO SELVAGEM (%)
CYP2C9
*1/*1 70 90 95
*1/*2 17 2 0 22
*1/*3 9 3 4 34
*2/*2 2 0 0 43
*2/*3 1 0 0 53
*3/*3 0 0 1 76
VKORC1
Não A/Não A 37 82 7
Não A/A 45 12 30 26
A/A 18 6 63 50

Varfarina - Interações e Toxicidade

  • Interações Medicamentosas: Inúmeras! Qualquer substância ou condição que altere:
    • Captação/metabolismo da varfarina ou vitamina K.
    • Síntese/função/depuração de fatores de coagulação ou células da hemostasia.
    • Integridade de superfícies epiteliais.
    • Reduzem efeito: Colestiramina, indutores de enzimas hepáticas (barbitúricos, carbamazepina, rifampicina), vitamina K dietética.
    • Aumentam risco de sangramento: Inibidores de CYP2C9 (amiodarona, antifúngicos azóis, cimetidina, clopidogrel, fluoxetina), deslocamento de proteínas (diuréticos de alça), deficiência de vitamina K (dieta inadequada, antibióticos).
  • Toxicidade - Sangramento: Principal toxicidade. Risco aumenta com intensidade/duração da terapia e outras medicações.
    • Tratamento de superdosagem/sangramento:
      • RNI elevado sem sangramento: Interromper varfarina, reiniciar com dose menor.
      • RNI 5-9: Vitamina K oral (1-2,5 mg).
      • RNI > 9: Vitamina K oral (3-5 mg).
      • Sangramento grave/RNI > 20: Plasma fresco congelado + Vitamina K IV (10 mg).
  • Defeitos Congênitos: Contraindicada na gravidez (hipoplasia nasal, calcificações epifisárias, malformações do SNC, hemorragia fetal).
  • Necrose Cutânea: Rara complicação, 3-10 dias após início, por desequilíbrio entre Proteína C (curta meia-vida) e fatores pró-coagulantes.
  • Síndrome do dedo do pé púrpura: Coloração azulada nos dedos.

Varfarina - Uso Clínico e Monitoramento

  • Uso Clínico:
    • Impedir progressão/recorrência de TVP aguda ou embolia pulmonar (após heparina).
    • Prevenção de tromboembolia venosa (cirurgia ortopédica/ginecológica).
    • Isquemia coronariana recorrente (IAM).
    • Embolização sistêmica (próteses valvares cardíacas, fibrilação atrial crônica).
  • Monitoramento da Terapia:
    • RNI (Relação Normalizada Internacional): Padroniza o TP (Tempo de Protrombina).
    • Fórmula: RNI = (TP do Paciente / TP Normal) ^ ISI.
    • ISI (Índice de Sensibilidade Internacional): Fornecido pelo fabricante do reagente.
    • Faixa Terapêutica: Maioria das indicações 2-3. Próteses mecânicas de alto risco 2,5-3,5.
    • Início da Terapia: Medidas frequentes de RNI. Após estabilização, mensal.
    • Transição de Heparina: Manter heparina/derivado por 5 dias e até RNI em faixa terapêutica por 2 dias consecutivos.
  • Resistência à Varfarina: Necessidade de >20 mg/dia. Causas: ingestão excessiva de vitamina K, má adesão, mutações no VKORC1.
  • Sensibilidade à Varfarina: Necessidade de <1,5 mg/dia. Causas: alelos variantes de CYP2C9 ou VKORC1.

Outros Antagonistas da Vitamina K e Novos Anticoagulantes Orais (NOACs)

  • Outros Antagonistas da Vitamina K:
    • Femprocumona: Meia-vida mais longa (5 dias) que varfarina. Uso na Europa.
    • Acenocumarol: Meia-vida mais curta (10-24h). Uso na Europa.
    • Derivados da Indandiona (Anisindiona): Ações semelhantes à varfarina, mas mais efeitos adversos.
    • Rodenticidas (Bromadiolona, Brodifacum): Ação longa, podem requerer altas doses de vitamina K.
  • Novos Anticoagulantes Orais (NOACs): Desenvolvidos para substituir a varfarina, simplificando o tratamento (doses fixas sem monitoramento da coagulação).
    • Etexilato de Dabigatrana: Pró-fármaco, inibidor direto e reversível da trombina.
      • Biodisponibilidade oral 6%, meia-vida 12-14h.
      • Uso: Profilaxia de tromboembolia venosa (após cirurgia), prevenção de AVE em fibrilação atrial.
    • Rivaroxabana: Inibidor oral do Fator Xa.
      • Biodisponibilidade 80%, meia-vida 7-11h.
      • Uso: Profilaxia de trombos (após cirurgia), tratamento de tromboembolismo venoso.
    • Outros em Desenvolvimento: Apixabana, edoxabana, betrixabana (inibidores de Fator Xa); AZD0837 (inibidor da trombina).

AGENTES FIBRINOLÍTICOS

  • Mecanismo: Ativam plasminogênio para converter em plasmina, que digere a fibrina.
  • α2-Antiplasmina: Glicoproteína que inativa a plasmina. Ocorre "estado lítico sistêmico" se esgotada.
  • Plasminogênio: Glicoproteína que se liga à fibrina por domínios kringle.
  • Estreptocinase: Proteína bacteriana que forma complexo com plasminogênio, ativando-o. (Uso clínico raro atualmente).
  • Ativador de Plasminogênio Tecidual (t-PA):
    • Serina protease. Ativador fraco na ausência de fibrina.
    • Liga-se à fibrina, aumentando a ativação do plasminogênio em 300x.
    • Depuração hepática, meia-vida 5 min.
    • t-PA (Alteplase): Produzido por DNA recombinante. Uso: Trombólise coronariana (IM), AVE isquêmico agudo.
    • Variantes recombinantes: Reteplase, Tenecteplase (meias-vidas aumentadas, permitem injeção IV em bolo).
  • Toxicidade Hemorrágica: Principal toxicidade. Resulta da lise da fibrina em tampões hemostáticos e do estado lítico sistêmico.
    • Hemorragia intracraniana (0,3% com t-PA).
    • Contraindicações (Quadro 30-3): Hemorragia intracraniana prévia, AVCI em 3 meses, sangramento ativo, trauma recente, PA não controlada.

INIBIDORES DA FIBRINÓLISE

  • Ácido Aminocaproico:
    • Análogo da lisina, compete pelos locais de ligação da lisina no plasminogênio e plasmina.
    • Bloqueia a interação da plasmina com a fibrina.
    • Uso: Reduzir sangramento após cirurgia de próstata ou extrações dentárias em hemofílicos.
    • Efeito: Trombos formados não sofrem lise.
    • Toxicidade: Miopatia, necrose muscular.
  • Ácido Tranexâmico:
    • Análogo da lisina, mecanismo semelhante ao ácido aminocaproico.
    • Uso: Sangramento menstrual intenso.

FÁRMACOS ANTIPLAQUETÁRIOS 

  • Mecanismo Geral: Inibem a função plaquetária (adesão, ativação, agregação).
  • Ácido Acetilsalicílico (AAS):
    • Inibe COX-1 plaquetária (irreversivelmente) → bloqueia produção de TxA2 (tromboxano A2), um potente indutor da agregação.
    • Ação permanente (7-10 dias), pois plaquetas não sintetizam novas proteínas.
    • Dose efetiva antitrombótica: 50-320 mg/dia.
  • Dipiridamol:
    • Aumenta AMP cíclico plaquetário (inibe fosfodiesterases, bloqueia captação de adenosina).
    • Pouco benefício como agente antitrombótico isolado. Usado com varfarina ou AAS (eficácia questionável).
  • Tienopiridinas (Ticlopidina, Clopidogrel, Prasugrel):
    • Inibem (irreversivelmente) o receptor P2Y12 de ADP nas plaquetas.
    • Ticlopidina: Pró-fármaco. Efeitos adversos: neutropenia, Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT-SHU). Largamente substituída pelo clopidogrel.
    • Clopidogrel: Pró-fármaco. Menos tóxico que ticlopidina. Variabilidade na resposta (polimorfismos CYP2C19). Uso com AAS pós-angioplastia/stent.
    • Prasugrel: Pró-fármaco. Início de ação mais rápido e inibição mais previsível que clopidogrel. Mais eficaz, mas maior risco de sangramento. Contraindicado em AVE prévio.

FÁRMACOS ANTIPLAQUETÁRIOS (Inibidores GPIIb/IIIa e Novos Agentes)

  • Inibidores da Glicoproteína IIb/IIIa (GP IIb/IIIa):
    • GP IIb/IIIa (ou αIIbβ3) é receptor de fibrinogênio e FvW nas plaquetas ativadas.
    • Inibição bloqueia a via final comum da agregação plaquetária.
  • Características dos Antagonistas GPIIb/IIIa:

CARACTERÍSTICAABCIXIMABEEPTIFIBATIDATIROFIBANA

Descrição Fragmento Fab de anticorpo monoclonal humanizado Heptapeptídeo cíclico contendo KGD Molécula não peptídica semelhante a RGD
Específico para GPIIb/IIIa Não (liga-se a receptor de vitronectina) Sim Sim
Meia-vida plasmática Curta (min) Longa (2,5 h) Longa (2 h)
Meia-vida de ligação a plaquetas Longa (dias) Curta (s) Curta (s)
Depuração renal Não Sim Sim
  • Novos Agentes Antiplaquetários:
    • Cangrelor: Inibidor direto, reversível de P2Y12 (IV), meia-vida 3-6 min.
    • Ticagrelor: Inibidor oral, reversível de P2Y12, mais rápido e previsível que clopidogrel. Reduz morte cardiovascular em síndromes coronarianas agudas.
    • Inibidores de PAR-1 (SCH530348, E5555): Bloqueiam ativação plaquetária mediada pela trombina.

O PAPEL DA VITAMINA K

  • Química: Vitamina K1 (filoquinona, plantas), Vitamina K2 (menaquinonas, bactérias).
  • Funções Fisiológicas:
    • Cofator essencial para γ-glutamil carboxilase (no fígado).
    • Catalisa γ-carboxilação de fatores de coagulação (II, VII, IX, X) e proteínas anticoagulantes (C, S, Z).
    • Resíduos Gla permitem ligação ao Ca2+ e interação com fosfolipídeos de membrana.
  • Mecanismo (Figura 30-7): Ciclo da vitamina K.
    • Vitamina K reduzida atua como cofator para γ-glutamil carboxilase.
    • Forma-se epóxido de vitamina K.
    • Vitamina K epóxido redutase (VKOR) regenera vitamina K reduzida.
    • Varfarina inibe VKOR.
  • Necessidades Humanas: Não definidas precisamente (0,03-1 μg/kg/dia).
  • Sintomas de Deficiência: Tendência aumentada a sangramento (equimoses, epistaxe, hematúria).
    • Anormalidades ósseas fetais (síndrome da varfarina fetal) ligadas à deficiência.
  • Toxicidade: Fitonadiona e menaquinonas não tóxicas. Menadiona (sintética) causa anemia hemolítica em neonatos.
  • Absorção: Depende da presença de sais biliares.
  • Usos Terapêuticos:
    • Corrigir sangramento/hemorragia associada à deficiência de vitamina K.
    • Doença hemorrágica do recém-nascido (1 mg fitonadiona IM ao nascimento).
    • Má absorção (obstrução biliar, fibrose cística).
    • Hipoprotrombinemia induzida por fármacos/veneno (ex: antagonistas da vitamina K).

Resumo Clínico

  • Heparina e HBPMs: Usadas em tromboembolia venosa, angina instável, IM, profilaxia de trombose.
    • Principais EA: sangramento, TIH.
  • Inibidores diretos da trombina: Para pacientes com TIH (lepirudina, bivalirudina, argatrobana).
  • Varfarina: Previne progressão/recorrência de tromboembolia venosa, embolização sistêmica.
    • Janela terapêutica estreita, muitas interações.
    • Risco de sangramento e defeitos fetais.
  • NOACs: Promessas para substituir varfarina, simplificando o cuidado (doses fixas sem monitoramento).
  • Fibrinolíticos (t-PA e derivados): Reduzem mortalidade no IM, usados em AVE isquêmico agudo.
    • Principal EA: hemorragia.
  • Agentes Antiplaquetários (AAS, clopidogrel, inibidores GPIIb/IIIa): Previnem trombose pós-angioplastia, IM, AVE.
    • Principal EA: sangramento.

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By jorge veras

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