MODULADORES DA ARRITMIA CARDÍACA
Fisiologia, Mecanismos e Farmacologia dos Fármacos Antiarrítmicos
Introdução – O Ritmo Cardíaco
- Fundamento: Células cardíacas despolarizam e repolarizam (~60 vezes/min) para gerar potenciais de ação.
- Determinação: Forma e duração do potencial de ação são definidas pela atividade dos canais iônicos.
- Arritmias: Anormalidades do ritmo cardíaco, geradas por perturbações nos canais iônicos (mutação, isquemia, estímulos simpáticos, cicatrização).
- Fármacos Antiarrítmicos: Suprimem arritmias bloqueando canais iônicos ou alterando a função autonômica.
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Objetivos do Tratamento:
- Fim de uma arritmia em curso.
- Prevenção de recorrências.
- Cuidado: Fármacos antiarrítmicos também podem causar arritmias (proarritmia).
- Prescrição: Requer diagnóstico preciso, exclusão de fatores precipitantes e crença no benefício/risco minimizado.
Princípios de Eletrofisiologia Cardíaca – Fluxo Iônico
- Potencial de Ação: Entidade integrada; mudanças em uma corrente iônica afetam outras.
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Ação dos Fármacos:
- A maioria afeta múltiplas correntes iônicas.
- Muitos exercem efeitos ancilares (contratilidade, função autonômica).
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Célula Cardíaca em Repouso:
- Potencial transmembrana negativo (-80 a -90 mV).
- Mantido por bombas (Na+, K+-ATPase) e cargas aniônicas fixas.
- Canais de Na+ fechados; canais de K+ (retificadores de influxo) abertos.
- [K+] extracelular é determinante principal do potencial de repouso.
O Potencial de Ação Cardíaco
- Determinante: Corrente transmembrana através de canais iônicos dependentes de voltagem.
- Canais Iônicos: Proteínas transmembrana com domínio sensível à voltagem, filtro de seletividade e poro condutor.
- Início: Miocito despolarizado acima do limiar.
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Fase 0 (Despolarização Rápida):
- Abertura de canais de Na+ → influxo rápido de Na+.
- Determina a velocidade de condução.
- Canais de Na+ se inativam rapidamente.
- Mutações podem prolongar potencial de ação (síndrome de QT longo congênita).
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Fase 1 (Repolarização Inicial):
- Abertura de canais de K+ translocacionais (Ito) → efluxo de K+.
- Cria um "entalhe" na repolarização.
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Fase 2 (Platô):
- Equilíbrio entre correntes de influxo (Ca2+ tipo L) e correntes de efluxo (K+).
- Canais de Ca2+ inativam-se, correntes de K+ aumentam.
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Fase 3 (Repolarização Rápida):
- Predomínio do efluxo de K+ (correntes retificadoras tardias - IK).
- Mutações nos canais de K+ podem causar síndrome de QT longo congênita.
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Fase 4 (Diástole/Repouso):
- Canais de Na+ se recuperam da inativação para o estado fechado.
- Células marca-passo (nodais): Despolarização diastólica espontânea.
Heterogeneidade do Potencial de Ação no Coração
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Variações Regionais:
- Ventrículo: Duração e forma do potencial de ação (DPA) variam na parede e apicobasalmente.
- Sistema His-Purkinje: Potencial de platô mais hiperpolarizado, DPA prolongado.
- Células Atriais: DPA curtos devido a maior Ito e corrente de K+ ativada por acetilcolina (estimulação vagal encurta mais).
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Nodos Sinusal (SA) e Atrioventricular (AV):
- Carentes de correntes de Na+ substanciais.
- Despolarização por movimento de Ca2+.
- Exibem despolarização diastólica espontânea (Fase 4).
- Nodo SA: Marca-passo natural do coração (taxa de disparo mais rápida).
- Correntes de marca-passo: Canais HCN (permeáveis a K+ e Na+), liberação espontânea de Ca2+ do RS.
Manutenção da Homeostase Iônica Intracelular
- Na+/K+-ATPase: Bombeia 3 Na+ para fora e 2 K+ para dentro, mantendo gradientes.
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Regulação de Ca2+ Intracelular:
- Normalmente muito baixos (< 100 nM).
- Entrada de Ca2+ (canais tipo L) durante potencial de ação → libera Ca2+ do retículo sarcoplasmático (RS) via receptores de rianodina (RiR2).
- Aumento de Ca2+ intracelular → contração muscular.
- Remoção de Ca2+: Ca2+-ATPase (para RS) e NCX (permutador Na+-Ca2+).
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Disregulação de Ca2+: Associada a insuficiência cardíaca e arritmias.
- Mutações em RiR2 e calsequestrina ligadas à taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica (TVPC).
- Flecainida inibe RiR2, evitando TVPC.
Propagação do Impulso e Eletrocardiograma (ECG)
- Origem: Nodo sinusal.
- Propagação: Depende da magnitude da corrente despolarizante (Na+) e geometria das conexões célula a célula.
- Anisotropia: Impulsos se disseminam mais rápido ao longo das células do que através delas.
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Eventos no ECG:
- Onda P: Ativação atrial (após nodo sinusal).
- Atraso no Nodo AV: Corrente de Ca2+ menor, retarda condução (permite enchimento ventricular).
- Sistema de Condução (His-Purkinje): Correntes de Na+ maiores, propagação rápida.
- Complexo QRS: Ativação ventricular coordenada.
- Onda T: Repolarização ventricular (mais larga que QRS devido à heterogeneidade dos DPA ventriculares).
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Guias no ECG:
- Frequência Cardíaca: Automatismo do nodo sinusal.
- Intervalo PR: Tempo de condução no nodo AV.
- Duração do QRS: Tempo de condução nos ventrículos.
- Intervalo QT: Medida da DPA.
Refratariedade e Falha na Condução
- Período Refratário: Intervalo em que a célula não consegue gerar um novo potencial de ação.
- Dependência do Na+: Se reestimulação precoce no platô, canais de Na+ inativados → célula refratária.
- Recuperação: Canais de Na+ recuperam da inativação para o estado fechado com repolarização.
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Tecidos de Resposta Lenta (Nodal):
- Canais de Ca2+ têm recuperação mais lenta da inativação.
- Mesmo após repolarização, nem todos os canais de Ca2+ estão disponíveis.
- Estímulos prematuros geram correntes reduzidas e propagação lenta.
- Condução Decremental: Dependência do momento do estímulo prematuro.
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Período Refratário Efetivo (PRE): Intervalo mais longo em que um estímulo prematuro falha em gerar resposta propagada.
- Determinado pela recuperação dos canais de Na+ dependentes de voltagem.
- Prolongado em tecidos isquêmicos.
Mecanismos das Arritmias Cardíacas
- Arritmia: Perturbação na iniciação e propagação do impulso.
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Bradiarritmias: Defeito na iniciação do impulso no nodo sinusal ou falha na propagação (bloqueio cardíaco).
- Causas: Fármacos, doença cardíaca estrutural. Pode exigir marca-passo.
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Taquiarritmias: Ritmos cardíacos anormalmente rápidos (problema clínico comum).
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Três Principais Mecanismos:
- Intensificação do automatismo.
- Automatismo desencadeado (pós-despolarizações).
- Reentrada.
- Os dois primeiros frequentemente iniciam a reentrada.
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Três Principais Mecanismos:
Intensificação do Automatismo
- Ocorrência: Em células com despolarização diastólica (nodos SA, AV e sistema His-Purkinje).
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Aceleração (Aumento da inclinação da Fase 4):
- Estimulação β-adrenérgica.
- Hipopotassemia.
- Estiramento mecânico.
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Redução (Diminuição da inclinação da Fase 4 e Hiperpolarização):
- Acetilcolina.
- Automatismo Anormal: Células que normalmente não são marca-passo podem adquirir essa atividade (ex: células ventriculares na isquemia).
- Consequência: Impulsos anormais excitando o coração podem levar a arritmias mais complexas e reentrada funcional.
Automatismo Desencadeado (Pós-Despolarizações)
- Definição: Potencial de ação normal interrompido ou seguido por uma despolarização anormal. Se atinge o limiar, gera batimentos secundários anormais.
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Tipos:
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Pós-Despolarização Tardia (PDT):
- Surgem após repolarização completa.
- Causadas por sobrecarga intracelular de Ca2+ (isquemia, estresse adrenérgico, intoxicação digitálica, IC).
- Ca2+ é expelido via NCX, produzindo influxo de Na+ e despolarização.
- Mais frequentes com frequência cardíaca rápida.
- Responsáveis por taquicardia ventricular induzida por exercícios na TVPC congênita.
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Pós-Despolarização Precoce (PDP):
- Interrompe a Fase 3 da repolarização.
- Ocorre quando o potencial de ação é notavelmente prolongado.
- Mais comuns com frequência cardíaca baixa, K+ extracelular baixo, e uso de fármacos que prolongam a DPA.
- Envolve correntes de influxo de Na+ ou Ca2+.
- Podem causar Torsade de Pointes (taquicardia ventricular polimórfica com QT longo), especialmente em síndrome de QT longo congênita.
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Pós-Despolarização Tardia (PDT):
Reentrada – Conceito
- Reentrada: Impulso cardíaco trafega por uma via para retornar e reativar seu local original, perpetuando a ativação rápida.
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Requisitos:
- Circuito anatômico ou funcional.
- Condução lenta em uma parte do circuito.
- Heterogeneidade da refratariedade no circuito.
Reentrada – Tipos
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Anatomicamente Definida:
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Ex: Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW): Conexões acessórias entre átrio e ventrículo.
- Um batimento prematuro pode bloquear na via acessória, propagar-se lentamente pelo nodo AV e sistema His-Purkinje, e reentrar no átrio pela via acessória quando esta não está mais refratária.
- Fármacos que bloqueiam o nodo AV (ex: Ca2+ bloqueadores) podem interromper.
- Outros exemplos: Taquicardia reentrante do nodo AV (TRNA), flutter atrial.
- Tratamento Primário: Ablação por radiofrequência para eliminar o foco.
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Ex: Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW): Conexões acessórias entre átrio e ventrículo.
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Funcionalmente Definida (“Círculo Condutor”):
- Não há trajeto anatômico fixo.
- Ex: Um batimento prematuro encontra tecido refratário em uma direção, propaga-se, e reexcita a área original quando esta recupera.
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Fibrilação Ventricular (FV) e Atrial (FA): Exemplos extremos de reentrada funcional.
- Células são reexcitadas assim que repolarizam o suficiente.
- Leva a padrões desorganizados de ativação e perda da contratilidade coordenada.
- Tratamento de FV: Cardioversão com corrente contínua (desfibrilação) é o melhor.
Fármacos Antiarrítmicos – Princípios Gerais
- Ações Múltiplas: Quase invariavelmente, os fármacos têm múltiplos efeitos, e suas ações nas arritmias podem ser complexas.
- Alvos Adicionais: Podem modular alvos além de seu modo de ação primário.
- Personalização: A terapia deve ser ajustada ao mecanismo subjacente mais relevante da arritmia.
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Mecanismos de Ação:
- Suprimir o mecanismo de iniciação.
- Alterar o circuito reentrante.
- Cuidado: Podem eliminar o iniciador, mas promover reentrada.
Modulação dos Ritmos Automáticos
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Fármacos Antiarrítmicos: Tornam mais lentos os ritmos automáticos alterando os determinantes da descarga marca-passo espontânea:
- Redução da inclinação da fase 4: (Ex: β-bloqueadores).
- Aumento do potencial limiar: (Ex: Bloqueadores de canais de Na+ ou Ca2+).
- Aumento do potencial diastólico máximo: (Ex: Adenosina, acetilcolina).
- Aumento da Duração do Potencial de Ação (DPA): (Ex: Bloqueadores de canais de K+).
Supressão das Pós-Despolarizações (PDT e PDP)
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Dois Mecanismos Principais:
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Inibição do desenvolvimento das pós-despolarizações:
- PDT induzidas por digitálicos: Verapamil (reduz influxo de Ca2+, diminui carga de Ca2+ no RS).
- PDP: Podem ser inibidas pelo encurtamento da DPA (acelerar FC com isoproterenol ou marca-passo).
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Interferência nas correntes de influxo:
- PDT induzidas por digitálicos: Quinidina (bloqueia canais de Na+, elevando potencial necessário).
- PDP: Mg2+ pode inibir batimentos desencadeados (mecanismo não bem compreendido).
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Inibição do desenvolvimento das pós-despolarizações:
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Torsade de Pointes (QT longo congênito):
- Estresse adrenérgico pode desencadear.
- Tratamento: β-bloqueio, instalação de marca-passo.
Aumento da Refratariedade
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Bloqueadores dos Canais de Na+:
- Deslocam a dependência de recuperação da inativação para potenciais mais negativos.
- Prolongam a refratariedade (Fig. 29-11A).
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Fármacos que Prolongam o DPA:
- Sem ação direta nos canais de Na+ (ex: bloqueadores das correntes de repolarização tardias).
- Retardam o momento em que os canais de Na+ recuperam da inativação (Fig. 29-11B).
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Outros:
- Bloqueio do canal de Ca2+ prolonga refratariedade em tecidos sinoatrial ou nodo AV.
- Fármacos que interferem no acoplamento célula a célula (ex: amiodarona em tecidos doentes).
- Aceleração da Condução Lenta: (Ex: Lidocaína) também pode inibir reentrada.
Bloqueio do Canal Iônico Dependente do Estado
- Conceito Fundamental: Fármacos ligam-se a locais específicos nas proteínas do canal, modificando sua função.
- Afinidade: Varia com as diferentes conformações funcionais (estados de repouso, aberto, inativado).
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Canais de Na+:
- Maioria dos fármacos úteis bloqueia canais nos estados aberto e/ou inativado.
- Pouca afinidade pelos canais no estado de repouso.
- Dissociação: Fármacos se dissociam no intervalo diastólico, cessando o bloqueio.
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Dependência da Frequência:
- Aumento da FC diminui o tempo disponível para dissociação.
- Aumenta o bloqueio do canal de Na+ no estado de equilíbrio.
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Dependência da Voltagem:
- Células mais despolarizadas (ex: isquemia) têm recuperação mais lenta do bloqueio.
- Bloqueadores de Na+ deprimem a corrente de Na+ mais em tecidos isquêmicos.
- Lidocaína: Recuperação muito curta (< 1s) → bloqueio substancial apenas em tecidos com impulsos rápidos ou isquêmicos.
- Flecainida: Recuperação muito longa (> 10s) → alentecimento da condução mesmo em tecidos normais com frequências normais.
Classificação dos Fármacos Antiarrítmicos (Visão Geral)
- Esquema de Vaughan Williams: Classifica fármacos por suas propriedades eletrofisiológicas (Classe I, II, III, IV).
- Abordagem Alternativa: Classificar pelo mecanismo da arritmia e direcionar o tratamento.
- Estrutura Genética: Nova abordagem para classificar a terapia.
- Importante: Muitos fármacos exercem múltiplos efeitos, contribuindo para suas ações clínicas.
Bloqueio do Canal de Na+ (Detalhado)
- Dependência: Crítica da frequência cardíaca, potencial de membrana e características físico-químicas do fármaco.
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Efeitos:
- Limiar de Excitabilidade: Diminui (necessária maior despolarização para abrir canais).
- Marca-passo: Aumenta limiar do marca-passo.
- Desfibrilação: Aumenta energia necessária para desfibrilar.
- Condução: Diminui velocidade em tecidos não nodais.
- Duração do QRS: Aumenta (ex: flecainida prolonga em ≥25%). Lidocaína só em FC muito rápidas.
- Intervalo PR: Alguns fármacos (flecainida) prolongam. Quinidina pode encurtar (vagolítica).
- DPA: Não afetada ou encurtada. Alguns prolongam DPA por outros mecanismos (ex: bloqueio de K+).
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Mecanismos Antiarrítmicos:
- Automatismo: Diminui automatismo (aumento do limiar, diminuição da inclinação da fase 4).
- Atividade Desencadeada: Inibe PDTs e PDPs.
- Reentrada: Pode diminuir a condução para extinguir a reentrada.
- Refratariedade: Aumenta a refratariedade (desloca dependência de voltagem da recuperação da inativação para potenciais mais negativos).
- Paradoxo: Alentecimento da condução pode exacerbar a reentrada.
Bloqueio da Corrente Tardia do Canal de Na+
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LQT3 (Síndrome do QT Longo tipo 3): Caracterizada por atraso da corrente de influxo de Na+ (defeitos na inativação do canal).
- Prolonga a DPA e predispõe à arritmia.
- Tratamento: Fármacos com efeitos anestésicos locais (ex: mexiletina) bloqueiam essa corrente tardia.
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Insuficiência Cardíaca: Modelos animais demonstram aumento da corrente de Na+ tardia.
- Bloqueio tardio de Na+ é um candidato atraente para fármacos antiarrítmicos nesse contexto.
- Outros Fármacos: Antagonistas β-adrenérgicos (propranolol) e ranolazina (antianginoso) preferencialmente inibem a corrente tardia de Na+.
Toxicidade dos Bloqueadores dos Canais de Na+
- Principal Risco: Acentuado alentecimento da condução em circuitos reentrantes potenciais pode levar à toxicidade.
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Exemplos:
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Flutter Atrial: Bloqueadores de Na+ podem diminuir a frequência do flutter, mas se o nodo AV permitir condução 1:1, a frequência ventricular pode aumentar drasticamente (ex: de 150 para 220 bpm).
- Comum com quinidina (vagolítica, aumenta condução AV), flecainida, propafenona.
- Taquicardia Ventricular (pós-IM): Podem aumentar a frequência e gravidade dos episódios arrítmicos.
- Paralisia Neuromuscular: Podem exacerbar a paralisia pela D-tubocurarina.
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Flutter Atrial: Bloqueadores de Na+ podem diminuir a frequência do flutter, mas se o nodo AV permitir condução 1:1, a frequência ventricular pode aumentar drasticamente (ex: de 150 para 220 bpm).
- Conclusão: Exacerbação de arritmia por fármaco pode ser difícil de controlar.
Prolongamento do Potencial de Ação (Bloqueio de Canais de K+)
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Mecanismo Principal: Bloqueio dos canais de K+ (também pode ocorrer por intensificação das correntes de influxo de Na+).
- Ex: Ibutilida prolonga QT por intensificar corrente de influxo de Na+.
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Efeitos:
- Aumenta DPA, reduz automatismo normal.
- Aumento do intervalo QT.
- Aumenta a refratariedade (modo eficaz de tratar reentrada).
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Benefícios Experimentais:
- Menos energia para desfibrilação.
- Inibição da fibrilação ventricular por isquemia.
- Aumento da contratilidade.
- Fármacos: Muitos bloqueadores de K+ interagem com receptores β-adrenérgicos (sotalol) ou outros canais (amiodarona, quinidina).
- Fármacos "Puros": Dofetilida, ibutilida.
Toxicidade dos Fármacos que Prolongam o Intervalo QT
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Principal Risco: Torsade de Pointes (TV polimórfica com QT longo).
- Ocorre quando o prolongamento do QT é desproporcional em FC lentas.
- Pode ocorrer com fármacos antiarrítmicos e não cardíacos (ex: eritromicina, antipsicóticos, antieméticos).
- Importância: Reconhecimento do risco levou à retirada de fármacos do mercado.
- Fatores de Risco: Hormônios sexuais (mulheres mais suscetíveis).
Bloqueio do Canal de Ca2+
- Efeitos Principais: Ocorrem em tecidos nodais.
- Diidropiridinas (ex: Nifedipino): Bloqueiam preferencialmente canais de Ca2+ do músculo liso vascular (efeitos cardíacos são reflexos).
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Verapamil, Diltiazem, Bepridil: Bloqueiam canais de Ca2+ das células cardíacas.
- Frequência Cardíaca: Reduzem (podem ter taquicardia reflexa se hipotensão acentuada).
- Intervalo PR: Aumenta (diminuição da condução AV).
- Nodo AV: Aumenta refratariedade e condução decremental.
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Ações Antiarrítmicas:
- Úteis em arritmias reentrantes que envolvem o nodo AV (ex: taquicardia reentrante AV).
- Redução da frequência ventricular no flutter ou fibrilação atrial.
- Formas raras de TV mediadas por PDT (verapamil).
- Uso: Verapamil e diltiazem IV para conversão rápida de TSVP, controle temporário da FC em FA/flutter. Oral para controle crônico e profilaxia de TSVP.
- Bepridil: Aumenta DPA (efeito nos átrios/ventrículos), mas risco de Torsade de Pointes (abandonado nos EUA).
Toxicidade dos Bloqueadores dos Canais de Ca2+
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Verapamil e Diltiazem:
- Hipotensão: Principal efeito adverso (especialmente IV em bolo). Piora se usado inadvertidamente em TV. Piora com outros vasodilatadores ou disfunção VE.
- Bradicardia Sinusal/Bloqueio AV: Especialmente em pacientes suscetíveis (ex: com β-bloqueadores).
- Constipação: Com uso oral de verapamil.
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Considerações:
- Verapamil é um racemato (L-verapamil mais potente, mas metabolizado no fígado).
- Diltiazem também sofre metabolismo hepático de primeira passagem.
- Efeitos adversos dependem da doença cardíaca subjacente e tratamentos concomitantes.
- Podem aumentar concentração sérica de digoxina.
Bloqueio dos Receptores β-Adrenérgicos
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Efeitos da Estimulação β-Adrenérgica:
- Aumenta corrente de Ca2+, retarda inativação.
- Aumenta correntes de K+ e Cl- de repolarização.
- Aumenta corrente marca-passo (acelera FC sinusal).
- Aumenta Ca2+ armazenado no RS (maior probabilidade de liberação espontânea e PDT).
- Pode intensificar arritmias mediadas por PDT e PDP.
- Epinefrina plasmática alta (estresse) diminui K+ sérico.
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Ação dos β-Bloqueadores:
- Inibem esses efeitos da estimulação β-adrenérgica.
- Reduzem FC, diminuem sobrecarga intracelular de Ca2+, inibem automatismo mediado por pós-despolarizações.
- Aumentam energia necessária para fibrilar o coração (ação antiarrítmica).
- Reduzem mortalidade pós-IM (propranolol, timolol, metoprolol, atenolol).
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Ações Antiarrítmicas:
- Prolongam condução e refratariedade do nodo AV (úteis em arritmias reentrantes envolvendo nodo AV e controle da FC em FA/flutter).
- Úteis em pacientes com síndrome de QT longo congênito e arritmias desencadeadas por estresse.
- Podem ser eficazes contra arritmias por bloqueadores de Na+ (reduzem FC, o que reduz lentidão da condução).
Toxicidade dos Bloqueadores dos Receptores β-Adrenérgicos
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Efeitos Adversos Comuns:
- Fadiga.
- Broncospasmo.
- Hipotensão.
- Impotência, depressão.
- Agravamento da insuficiência cardíaca.
- Piora de sintomas de doença vascular periférica.
- Mascaramento de hipoglicemia em diabéticos.
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Cuidado em Certos Pacientes:
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Estimulação simpática excessiva (ex: feocromocitoma, abstinência de clonidina): Podem causar estimulação α-adrenérgica incontrolada → hipertensão grave, arritmias.
- Tratar com antagonistas α e β (ex: labetalol).
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Abstinência: Cessação repentina de tratamento crônico pode causar hipertensão, angina, arritmias de rebote.
- Retirada gradual ao longo de duas semanas.
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Estimulação simpática excessiva (ex: feocromocitoma, abstinência de clonidina): Podem causar estimulação α-adrenérgica incontrolada → hipertensão grave, arritmias.
- β1-Seletivos: Esmolol (meia-vida curta, útil em situações agudas), metoprolol, atenolol.
- Não-Seletivos: Sotalol (também bloqueia canais de K+, o que o torna mais eficaz que outros β-bloqueadores em algumas arritmias).
Princípios do Uso Clínico dos Fármacos Antiarrítmicos
- Objetivos do Tratamento: Claramente estabelecidos.
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O Exemplo CAST (Cardiac Arrhythmias Suppression Trial):
- Batimentos ectópicos ventriculares assintomáticos pós-IM são marcadores de risco de morte súbita.
- Fármacos potentes (encainida, flecainida) suprimiram os ectópicos, mas aumentaram a mortalidade (2-3x).
- Lição: Não tratar anormalidades detectadas se não houver claro benefício.
- Somente β-bloqueadores e amiodarona (em menor proporção) demonstraram redução da mortalidade a longo prazo.
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Sintomas Devido a Arritmias:
- Podem ser assintomáticos.
- Sintomas: pré-síncope, síncope, parada cardíaca, palpitações, falta de ar, IC.
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Escolha da Abordagem Terapêutica:
- Depende dos sintomas, tipo e extensão da doença cardíaca estrutural, intervalo QT, doença do sistema de condução, comorbidades.
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Ex: Fibrilação Atrial:
- Controlar resposta ventricular (β-bloqueadores, Ca2+ bloqueadores, digitálicos).
- Restaurar e manter ritmo sinusal (quinidina, flecainida, amiodarona).
- Não tratar (se assintomático).
- Cuidado com WPW e FA: Fármacos que bloqueiam o nodo AV podem acelerar a resposta ventricular via via acessória, com risco de morte.
- Avaliação Pré-Tratamento: Frequência e reprodutibilidade da arritmia.
Minimização de Riscos
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Fármacos Antiarrítmicos Podem Causar Arritmias:
- Risco conhecido de proarritmia (Quadro 29-1 no documento original).
- Reconhecer arritmias induzidas por fármacos é crucial (retirar o agente causal).
- Ex: Tratar TV com verapamil (ineficaz) pode causar colapso cardiovascular.
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Monitoramento da Concentração Plasmática:
- Pode minimizar alguns efeitos adversos (ajustar dose para faixa terapêutica).
- Muitas reações graves estão ligadas a interações, distúrbios eletrolíticos, isquemia, e doença cardíaca subjacente.
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Contraindicações Específicas para o Paciente:
- Evitar certos fármacos em subconjuntos de pacientes (ex: disopiramida em IC, amiodarona em doença pulmonar avançada). (Quadro 29-4 no documento original).
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Eletrofisiologia Cardíaca como "Alvo Móvel":
- Varia dinamicamente com influências externas (tônus autônomo, isquemia, estiramento miocárdico).
- Isquemia: Altera K+ extracelular, inativa canais de Na+, diminui condução, ativa canais quiescentes.
- Essas alterações podem criar arritmias ou modificar a resposta ao tratamento.
Adenosina
- Natureza: Nucleosídeo de ocorrência natural.
- Uso: Bolo IV rápido para fim imediato de arritmias supraventriculares reentrantes.
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Mecanismo:
- Ativa receptores de adenosina acoplados à proteína G.
- Ativa corrente de K+ (sensível à acetilcolina) no átrio, nodos SA e AV.
- Encurta potencial de ação, hiperpolariza, alentece automatismo.
- Inibe efeitos eletrofisiológicos do aumento de AMP cíclico (estimulação simpática) → reduz correntes de Ca2+.
- Aumenta refratariedade do nodo AV, inibe PDTs evocadas por estimulação simpática.
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Farmacocinética:
- Meia-vida de segundos.
- Eliminada por captação e metabolismo rápido.
- Requer administração IV rápida (acesso central ideal).
- Potencializada por dipiridamol, hipersensibilidade por denervação (transplantes).
- Metilxantinas (teofilina, cafeína) bloqueiam receptores de adenosina.
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Efeitos Adversos:
- De curta duração (vantagem).
- Assistolia transitória (comum, objetivo terapêutico).
- Sensação de plenitude torácica, dispneia.
- Raramente: broncospasmo, fibrilação atrial.
Amiodarona
- Características: Múltiplos efeitos farmacológicos, análogo estrutural do hormônio da tireoide, altamente lipofílica (concentra-se em tecidos, eliminação lenta).
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Uso:
- Tratamento oral para TV recorrente ou fibrilação refratária.
- Manutenção do ritmo sinusal em FA.
- IV para cessação imediata de TV/FV (primeira linha para parada cardíaca fora do hospital).
- Benefício na mortalidade pós-IM.
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Mecanismo:
- Bloqueia canais de Na+ inativados (recuperação relativamente rápida).
- Diminui corrente de Ca2+, correntes retificadoras tardias de efluxo e influxo de K+.
- Efeito bloqueador adrenérgico não competitivo.
- Inibe automatismo anormal, prolonga DPA.
- Diminui velocidade de condução (bloqueio de Na+, efeito no acoplamento célula a célula).
- Prolonga refratariedade em todos os tecidos cardíacos.
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Farmacocinética:
- Biodisponibilidade oral ~30% (má absorção).
- Regime de ataque (800-1600 mg/dia por semanas), depois manutenção (200-400 mg/dia).
- Eliminação muito lenta (meia-vida de semanas a meses).
- Inibe CYP3A4, CYP2C9 e P-glicoproteína (interage com varfarina, outros antiarrítmicos, digoxina).
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Efeitos Adversos:
- Fase aguda (IV): Hipotensão, depressão miocárdica (parcialmente pelo solvente).
- Tratamento a longo prazo: Fibrose pulmonar (mais sério, doses >400mg/dia), microdepósitos corneanos, disfunção hepática, neuromusculares, fotossensibilidade, hipo/hipertireoidismo.
- Raras Torsade de Pointes apesar do QT longo e bradicardia.
Digoxina
- Natureza: Glicosídeo cardíaco.
- Uso: Insuficiência cardíaca, arritmias.
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Mecanismo (Efeitos Indiretos):
- Efeitos inotrópicos positivos (aumento de Ca2+ intracelular).
- Ações vagotônicas proeminentes: Inibição de correntes de Ca2+ no nodo AV, ativação de correntes de K+ mediadas por acetilcolina no átrio.
- Hiperpolarização, encurtamento do potencial de ação atrial, aumento da refratariedade do nodo AV.
-
Ações Antiarrítmicas:
- Útil para arritmias reentrantes envolvendo o nodo AV.
- Controle da resposta ventricular em fibrilação atrial.
- Especialmente útil em IC, onde outros bloqueadores do nodo AV podem piorar.
- Menos eficaz com alto tônus simpático.
- Efeitos Eletrocardiográficos: Prolongamento do intervalo PR, alteração inespecífica da repolarização ventricular.
-
Farmacocinética:
- Biodisponibilidade oral ~80%.
- Distribuição lenta (horas para efeitos).
- Eliminação renal (80%), meia-vida ~36h.
- Dose de ataque (0,6 mg em 24h), manutenção (0,0625-0,5 mg/dia).
- Níveis séricos: 0,5-2 ng/mL.
- Interage com amiodarona, quinidina, verapamil, diltiazem (diminuem depuração da digoxina via P-glicoproteína).
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Efeitos Adversos:
- Baixo índice terapêutico → toxicidade comum.
- Arritmias (taquicardia atrial com bloqueio AV, bigeminismo ventricular, TV bidirecional), náuseas, distúrbios cognitivos, visão borrada/amarela.
- Fatores de risco: Níveis séricos altos, hipoxia, distúrbios eletrolíticos (hipopotassemia, hipomagnesemia, hipercalcemia).
- Intoxicação grave: Hiperpotassemia, bradiarritmia.
- Tratamento: Anticorpos antidigoxina, atropina, Mg2+, marca-passo.
Disopiramida
- Mecanismo: Efeitos eletrofisiológicos similares à quinidina (bloqueador de Na+ e prolonga DPA).
- Uso: Manter ritmo sinusal em flutter/FA, prevenir recorrência de TV/FV.
-
Características:
- Não é antagonista α-adrenérgico.
- Ações anticolinérgicas proeminentes: Boca seca, constipação, retenção urinária, glaucoma.
- Deprime contratilidade miocárdica (pode precipitar IC).
- Pode causar Torsade de Pointes.
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Farmacocinética:
- Bem absorvida.
- Ligação a proteínas plasmáticas dependente da concentração.
- Eliminação: Metabolismo hepático (metabólito fracamente ativo) e excreção renal.
- Ajuste de dose em disfunção renal.
Dofetilida
- Mecanismo: Bloqueador de K+ potente e "puro" (específico para IK), quase sem efeitos extracardíacos.
- Uso: Manter ritmo sinusal em FA. Não afeta mortalidade em IC/pós-IM.
- Distribuição: Disponível apenas por sistema de distribuição restrito (exige educação sobre dosagem e monitoramento hospitalar).
-
Efeitos Adversos:
- Torsade de Pointes: Ocorre em 1-3% (mesmo com monitoramento rigoroso).
- Outros efeitos raros.
-
Farmacocinética:
- Excretada inalterada pelos rins (maioria).
- Ajuste de dose em insuficiência renal (baseado em depuração de creatinina).
- Contraindicada em insuficiência renal avançada ou com inibidores de transporte renal de cátions.
Dronedarona
- Natureza: Derivado benzofurano não iodado da amiodarona.
- Uso: Aprovado para FA e flutter atrial (manutenção de ritmo sinusal, redução da FC).
- Comparação com Amiodarona: Menos efeitos adversos, mas significativamente menos eficaz na manutenção do ritmo sinusal.
-
Mecanismo: Bloqueador de múltiplas correntes iônicas (IKr, IKs, IKi, canal de Na+, canal de Ca2+ tipo L).
- Efeitos antiadrenérgicos mais fortes que amiodarona.
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Efeitos Adversos:
- Comuns: Diarreia, náuseas, dor abdominal, vômitos, astenia.
- Prolongamento do QTc dose-dependente, mas Torsade de Pointes é raro.
- Contraindicações: Aumenta mortalidade em pacientes com insuficiência cardíaca grave (NYHA Classe 4 ou descompensação recente).
-
Interações Medicamentosas: Metabolizada por CYP3A4, inibidor moderado de CYP3A, CYP2D6 e P-glicoproteína.
- Contraindicada com inibidores potentes de CYP3A4.
- Aumenta concentrações de outros fármacos metabolizados por CYP2D6 (ex: metoprolol) ou P-glicoproteína (ex: digoxina).
Esmolol
- Natureza: β1-seletivo.
- Características: Metabolizado por esterases eritrocitárias, meia-vida de eliminação muito curta (9 min).
-
Uso: IV para bloqueio β-adrenérgico imediato.
- Controle rápido da FC em fibrilação atrial.
- Vantagem: Efeitos adversos dissipam rapidamente com interrupção.
Flecainida
- Mecanismo: Bloqueia canais de Na+ (recuperação do bloqueio muito longa) e canais de K+ (IKr). Também bloqueia canais de Ca2+ in vitro.
- DPA: Encurtado em células de Purkinje, prolongado em ventriculares.
- CAST Trial: Aumentou mortalidade em pacientes pós-IM (não usar em cardiopatia estrutural).
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Uso: Manutenção do ritmo sinusal em arritmias supraventriculares (incluindo FA) sem doença cardíaca estrutural.
- TV sustentada.
-
Particularidades:
- Prolonga PR, QRS, QT mesmo em FC normais.
- Bloqueia canais RiR2, suprimindo arritmias em TVPC.
-
Efeitos Adversos:
- Visfio borrada (dose-dependente).
- Pode aumentar insuficiência cardíaca.
- Exacerbação de arritmias letais: Aceleração da FC ventricular em flutter atrial, maior frequência de TV reentrante, maior mortalidade pós-IM.
- Pode causar bloqueio cardíaco.
-
Farmacocinética:
- Bem absorvida.
- Eliminação renal e metabolismo hepático (CYP2D6, polimorfismo).
- Meia-vida 10-18h (variável com pH urinário).
- Risco de acúmulo em disfunção renal e ausência de CYP2D6.
Ibutilida
- Mecanismo: Bloqueador de IKr, em alguns sistemas ativa corrente de influxo de Na+.
-
Uso: Infusão rápida (1 mg em 10 min) para conversão imediata de fibrilação ou flutter atrial para ritmo sinusal.
- Taxa de eficácia maior em flutter atrial (50-70%).
-
Toxicidade:
- Torsade de Pointes: Ocorre em até 6% dos pacientes.
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Farmacocinética:
- Extenso metabolismo de primeira passagem (não oral).
- Meia-vida 2-12h.
Lidocaína
- Natureza: Anestésico local.
- Uso: Tratamento IV imediato de arritmias ventriculares.
-
Mecanismo: Bloqueia canais de Na+ abertos ou inativados.
- Recuperação do bloqueio muito rápida.
- Efeitos maiores em tecidos despolarizados (isquêmicos) ou com impulsos rápidos.
- Inútil em arritmias atriais.
- Diminui automatismo (reduz inclinação da fase 4, altera limiar).
- DPA não afetada ou encurtada.
- Não afeta PR ou QRS; QT inalterado ou levemente encurtado.
- Vantagem: Pouco efeito na função hemodinâmica.
-
Efeitos Adversos:
- Com doses altas/rápidas: Convulsões.
- Com elevação lenta da concentração: Tremores, disartria, alteração de consciência, nistagmo (sinal precoce).
-
Farmacocinética:
- Bem absorvida, mas extenso metabolismo de primeira passagem (não oral).
- Administração IV (bolo inicial + infusão contínua).
- Meia-vida de eliminação ~110 min.
- Metabólitos ativos (GX, monoetil GX).
- Depuração diminuída em IC, doença hepática, com cimetidina/β-bloqueadores.
- Necessita monitoramento de níveis plasmáticos (1,5-5 µg/mL).
Magnésio
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Uso:
- Prevenção de episódios recorrentes de Torsade de Pointes (mesmo com Mg2+ sérico normal). Mecanismo desconhecido.
- Arritmias relacionadas à intoxicação digitálica.
- Eficácia: Estudos controlados conflitantes para infarto agudo do miocárdio.
- Mecanismo: Possível efeito na corrente de influxo (Ca2+) responsável pelas PDPs. Não encurta o intervalo QT.
Mexiletina
- Natureza: Análogo da lidocaína (oral).
- Mecanismo: Ações eletrofisiológicas similares à lidocaína.
-
Uso: Arritmias ventriculares.
- Pode ter papel na correção da corrente de influxo de Na+ aberrante em LQT3.
- Efeitos Adversos: Tremores, náuseas (minimizados com alimentos).
- Farmacocinética: Metabolismo hepático (induzível por fenitoína).
Procainamida
- Natureza: Análogo da procaína.
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Mecanismo: Efeitos eletrofisiológicos similares à quinidina, mas sem ações vagolíticas/α-adrenérgicas.
- Bloqueia canais de Na+ abertos (recuperação intermediária).
- Prolonga DPA (bloqueio de canais de K+).
- Diminui automatismo, aumenta períodos refratários, alentece condução.
- Metabólito ativo: N-acetil-procainamida (prolonga DPA, mas não bloqueia canais de Na+).
- Uso: Infusões para tratamento imediato de muitas arritmias supraventriculares e ventriculares.
- Limitação: Tratamento oral a longo prazo mal tolerado.
-
Efeitos Adversos:
- Hipotensão (bloqueio ganglionar) e alentecimento da condução (com altas concentrações, IV).
- Náuseas (oral).
- Torsade de Pointes: Particularmente com N-acetil-procainamida >30 µg/mL.
- Aplasia de medula óssea (rara, fatal).
- Síndrome Lúpica induzida por fármacos: Muito comum (25-50% desenvolvem sintomas). Resolvida com cessação. Mais frequente em "acetiladores lentos".
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Farmacocinética:
- Eliminação rápida (meia-vida 3-4h) por excreção renal e metabolismo hepático (N-acetil-transferase).
- N-acetil-procainamida (meia-vida 6-10h, eliminada renal).
- Acúmulo em insuficiência renal.
Propafenona
-
Mecanismo: Bloqueador de canais de Na+ (recuperação relativamente pequena). Também bloqueia canais de K+.
- Antagonista de receptores β (S-(+)-propafenona).
- Principal efeito eletrofisiológico: Alentecer a condução em tecidos de resposta rápida.
-
Uso: Manter ritmo sinusal em taquicardias supraventriculares (incluindo FA).
- Arritmias ventriculares (eficácia modesta).
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Efeitos Adversos:
- Aceleração da resposta ventricular em flutter atrial.
- Aumento da frequência e gravidade de TV reentrante.
- Exacerbação da insuficiência cardíaca.
- Efeitos adversos de bloqueio β-adrenérgico (bradicardia sinusal, broncospasmo).
-
Farmacocinética:
- Bem absorvida, eliminada por vias hepática e renal.
- Metabolismo hepático (CYP2D6) determina concentração plasmática (polimorfismo).
- "Metabolizadores extensos" (metabolismo de primeira passagem, metabólito ativo 5-hidroxi-propafenona).
- "Mauss metabolizadores" (CYP2D6 ausente) → concentrações muito maiores, maior incidência de efeitos adversos.
- Inibida por quinidina e fluoxetina.
- Ajuste de dose em doença hepática.
Quinidina
- Mecanismo: Bloqueia correntes de Na+ e múltiplas correntes de K+.
-
- Bloqueia canais de Na+ em estado aberto (recuperação intermediária).
- Prolonga DPA (principalmente em FC mais lentas).
- Em algumas células, evoca PDP (particularmente com K+ baixo).
- Prolonga refratariedade.
- Induz bloqueio de receptor β e inibição vagal (in vivo).
- Uso: Manter ritmo sinusal em flutter/FA, prevenir recorrência de TV/FV.
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Efeitos Adversos (Não Cardíacos):
- Diarreia (30-50%): Mais comum. Pode levar a hipopotassemia (potencializa Torsade de Pointes).
- Reações imunológicas: Trombocitopenia (grave), hepatite, depressão de MO, síndrome lúpica.
- Cinchonismo: Cefaleia, zumbido (dose-dependente).
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Efeitos Adversos (Cardíacos):
- Prolongamento do QT e Torsade de Pointes (2-8%): Pode ocorrer em concentrações terapêuticas.
- Bloqueio notável do canal de Na+ (altas concentrações) → TV.
- Exacerbação de IC e doença do sistema de condução.
- Efeito vagolítico pode aumentar condução AV em flutter atrial.
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Farmacocinética:
- Bem absorvida, 80% ligada a proteínas.
- Metabolismo oxidativo hepático (metabólito ativo 3-hidroxiquinidina).
- Excreção renal (20% inalterada).
- Variação individual na dose para atingir 2-5 µg/mL.
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Interações Medicamentosas:
- Inibidor potente de CYP2D6.
- Reduz depuração da digoxina.
- Metabolismo induzido por fenobarbital, fenitoína.
Sotalol
- Natureza: Antagonista não seletivo do receptor β-adrenérgico que também prolonga os potenciais de ação cardíacos.
- Mecanismo: Inibe a corrente IKr (K+), possivelmente outras correntes de K+.
- Uso: Taquiarritmias ventriculares e fibrilação/flutter atriais. Eficaz quanto bloqueadores de Na+.
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Efeitos Eletrofisiológicos:
- Prolonga DPA e intervalo QT.
- Diminui automatismo, alentece condução no nodo AV, prolonga refratariedade AV (ações β-bloqueadoras e bloqueadoras de K+).
- Não afeta velocidade de condução em tecido de resposta rápida.
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Efeitos Adversos:
- Torsade de Pointes (1,5-2%): Dependente da dose, especialmente em disfunção renal ou hipopotassemia.
- Outros efeitos associados a β-bloqueadores.
- Farmacocinética: Eliminado por excreção renal do fármaco inalterado.
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By jorge veras
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