Title Text

Classificar Foucault

Marcelo Stein de Lima Sousa

DALIC / UTFPR, Curitiba

Leitores de Foucault, Julho de 2026

  1. Historiadores
  2. História Natural
  3. Estrutura
  4. Caráter
  5. Contínuo e Catástrofe
  6. Discurso

Índice

Classificar Foucault

O Capítulo V de As Palavras e as Coisas, intitulado "Classificar", é um dos momentos centrais da obra de Michel Foucault. Nele, o autor investiga o modelo de pensamento (episteme) da Idade Clássica (séculos XVII e XVIII) que permitiu o nascimento da História Natural. Foucault demonstra que a "biologia", tal como a conhecemos hoje, não existia nessa época porque a própria noção de "vida" não estava constituída; o saber organizava-se, em vez disso, como uma grande grade ou quadro taxonômico focado em ordenar e nomear os seres vivos a partir de suas formas visíveis.

I. O que dizem os historiadores

Foucault inicia o capítulo analisando a forma como a historiografia tradicional das ideias e das ciências costuma explicar o surgimento das ciências da vida no século XVIII. Tradicionalmente, atribui-se esse fenômeno a causas lineares:

  • O avanço dos métodos de observação e aperfeiçoamentos técnicos como o microscópio;
  • O prestígio das ciências físicas e do mecanismo cartesiano, que teriam transferido um modelo de racionalidade mecânica para o domínio dos seres vivos;
  • Fatores socioeconômicos, como o interesse pela agricultura (a Fisiocracia) e agronomia;
  • A curiosidade gerada por plantas e animais exóticos trazidos por grandes viagens de exploração (como as de Tournefort e Adanson).

Os historiadores costumam mapear esse período por meio de grandes debates e oposições teóricas: o mecanicismo inicial que dá lugar ao vitalismo ; as disputas sobre os processos de geração (pré-formação contra desenvolvimento dos germes) ; e o conflito entre o fixismo (Lineu) e os primeiros presságios do evolucionismo (Diderot, Bonnet).

A Crítica de Foucault: Foucault argumenta que essa abordagem historiográfica é fundamentalmente anacrônica. Tentar escrever uma história da "biologia" no século XVIII ignora o fato de que a biologia não existia porque a própria vida não existia como conceito científico. Na Idade Clássica, existiam apenas seres vivos, os quais eram percebidos e organizados através de uma estrutura de saber radicalmente diferente: a História Natural.

II. A história natural

A criação da História Natural não decorre do fracasso do mecanicismo cartesiano, mas sim de uma mutação profunda na própria natureza do termo "História".

No século XVI (Renascimento), a "história" de uma planta ou animal (como nos tratados de Aldrovandi) era um tecido unitário e indissociável de tudo o que se sabia sobre o ser: sua anatomia, mas também as lendas associadas a ele, suas propriedades mágicas, o que os antigos escreveram a seu respeito, seus usos medicinais ou culinários e sua presença em brasões. Não havia separação clara entre Observação, Documento e Fábula, pois os signos e os textos faziam parte das próprias coisas.

A partir de meados do século XVII (simbolizado pela obra de Jonston em 1657), ocorre uma "súbita decantação". Os signos descolam-se das coisas e passam a ser modos de representação. Toda a carga semântica, mítica e literária desaba; as palavras entrelaçadas ao animal são subtraídas, e o ser vivo aparece "como que nu" em sua anatomia e costumes.

Na nova ordem descritiva de Lineu, a literatura (Litteraria) é empurrada para o último limite do capítulo, como um suplemento dispensável. Fazer história agora significa pousar um olhar minucioso sobre o mundo e transcrevê-lo em palavras neutras e fiéis. Os espaços dessa nova história não são os livros de compilação, mas os espaços claros de justaposição: os herbários, as coleções e os jardins botânicos, que substituem o "mostruário" e o espetáculo renascentista por uma exposição das coisas dispostas em um quadro (tabela taxonômica).

III. A estrutura

Foucault define a História Natural como a "nomeação do visível". Ela busca reduzir a distância entre o olhar e as palavras. Essa possibilidade não se deu porque os homens passaram a olhar "melhor" ou "mais de perto", mas sim porque se constituiu um novo campo de visibilidade baseado em restrições sistemáticas e voluntárias da experiência sensível.

A observação clássica opera por exclusões : descarta-se o "ouvir-dizer", mas também o paladar e o olfato, devido à sua variabilidade e incerteza. O tato é severamente limitado , e confere-se um privilégio quase exclusivo à visão, que é o sentido da extensão e da evidência. Mesmo dentro da visão, as cores são colocadas de lado por não permitirem comparações estáveis. O que resta é uma "visibilidade parda", purificada, cujos únicos objetos válidos são: linhas, superfícies, formas e relevos.

Para transcrever essa visibilidade estrita na linguagem e permitir que qualquer observador faça exatamente a mesma descrição de um ser, os naturalistas reduzem a extensão dos corpos a quatro variáveis fundamentais:

  • A forma dos elementos (figura);
  • A quantidade desses elementos (número);
  • A maneira como se distribuem no espaço uns em relação aos outros (situação);
  • A grandeza relativa de cada um (proporção).

A combinação dessas quatro variáveis (aplicáveis tanto às raízes, caules, folhas, flores ou frutos) é o que os botânicos denominam estrutura. O jardim botânico e o gabinete tornam-se o livro ordenado dessas estruturas. Eles ocultam intencionalmente o funcionamento interno, a anatomia profunda e o organismo para fazer surgir, diante dos olhos, o relevo puro das formas exteriores.

No final do século XVIII, esse arranjo será quebrado por Cuvier, que substituirá a classificação pela anatomia e a estrutura pelo organismo interno.

IV. O caráter

Embora a estrutura permita descrever minuciosamente um indivíduo, ela funciona como um "nome próprio" (pura designação). Para que a História Natural se torne de fato uma ciência e uma língua, ela precisa transformar essa descrição em um "nome comum", isto é, precisa encontrar um critério que, ao mesmo tempo, marque o indivíduo e o situe em um sistema de identidades e diferenças em relação a todos os outros seres. Esse elo é o caráter.

Como comparar detalhadamente todas as estruturas de todos os seres vivos geraria um trabalho infinito, a episteme clássica dividiu-se em duas técnicas para construir o caráter:

  • O Sistema: Consiste em escolher a priori um conjunto finito e limitado de traços estruturais (como fez Lineu ao escolher os órgãos sexuais das plantas) e estudar suas constâncias e variações em todos os indivíduos. Qualquer diferença que não recia sobre esses elementos escolhidos é considerada indiferente. O Sistema opera por relações horizontais de coordenação arbitrária, priorizando a eficácia combinatória.
  • O Método: Consiste em realizar comparações totais, mas no interior de grupos empiricamente já constituídos por grandes semelhanças (abordagem defendida por Buffon, Adanson e Jussieu). O Método avança das identidades mais gerais para as distinções mais particulares, o que permite fazer surgir relações verticais de subordinação interna de caracteres.

Apesar de parecerem opostos na superfície (o Sistema como uma visão rígida e fixa; o Método como a percepção de uma continuidade fervilhante), ambos compartilham o mesmo suporte epistemológico : o conhecimento dos seres só é possível sobre um quadro contínuo, ordenado e universal de todas as diferenças possíveis. Na Idade Clássica, a identidade é definida pelo resíduo das diferenças: um ser é aquilo que os outros não são; ele só existe no limite daquilo que dele se distingue.

V. O contínuo e a catástrofe

Para que a estrutura possa se transformar em caráter (permitindo a existência de nomes comuns), a História Natural exige como postulado fundamental que haja continuidade na natureza.

  • No Sistema, a continuidade se dá pela justaposição sem falhas de regiões distintas no quadro taxonômico;
  • No Método, a continuidade é de fusão: toda a natureza forma uma imensa trama onde os seres se assemelham gradualmente e de forma sutil, de modo que as divisões em classes ou ordens são puramente nominais e inventadas pela nossa limitação (como afirmavam Buffon e Bonnet: "não há saltos na natureza").

Ela realiza isso reagrupando as funções linguísticas:

  • A unidade da estrutura assume a função verbal e articuladora, mapeando de forma constante as variáveis atribuíveis a um ser;
  • O caráter assume a função de designação e derivação controlada, marcando o indivíduo ao mesmo tempo em que o localiza com precisão em um espaço de generalidades que se encaixam umas nas outras.

Por cima das palavras comuns, a Idade Clássica constrói uma linguagem de segundo grau onde reinam os Nomes exatos e científicos. A taxinomia clássica funciona, portanto, como o próprio discurso da natureza: um método que, diante da extrema confusão empírica do mundo, faz enunciar e revelar a ordem soberana da natureza.

Nesta superfície contínua e plana da natureza, o tempo e a história não são forças criadoras e profundas, mas apenas meios superficiais para a natureza percorrer a teia de suas variações infinitas. É nesse contexto que o capítulo aborda duas figuras marginais:

  • O Monstro: Funciona como uma caricatura que ilustra a gênese das diferenças sobre o fundo do contínuo;
  • O Fóssil: Funciona como uma memória que, através de semelhanças incertas, recorda as primeiras tentativas da natureza de fixar uma identidade.

VI O discurso da natureza

Foucault conclui o capítulo demonstrando que a teoria da História Natural é indissociável da teoria da linguagem da Idade Clássica. Ambas partilham do mesmo a priori histórico: a disposição do saber que ordena o conhecimento dos seres segundo a possibilidade de representá-los em um sistema de nomes. Classificar e falar encontram sua origem no mesmo espaço analítico da representação.

A ambição da História Natural é ser uma "língua bem-feita". Enquanto a linguagem cotidiana é "malfeita", fragmentada por paixões, preconceitos e hábitos, deixando interstícios abertos na representação, a História Natural busca fechar o jogo através de uma exatidão descritiva constante.

Ela realiza isso reagrupando as funções linguísticas:

  • A unidade da estrutura assume a função verbal e articuladora, mapeando de forma constante as variáveis atribuíveis a um ser;
  • O caráter assume a função de designação e derivação controlada, marcando o indivíduo ao mesmo tempo em que o localiza com precisão em um espaço de generalidades que se encaixam umas nas outras.

Por cima das palavras comuns, a Idade Clássica constrói uma linguagem de segundo grau onde reinam os Nomes exatos e científicos. A taxinomia clássica funciona, portanto, como o próprio discurso da natureza: um método que, diante da extrema confusão empírica do mundo, faz enunciar e revelar a ordem soberana da natureza.

Sorting Things Out: Classification and Its Consequences (1999), escrito por Geoffrey C. Bowker e Susan Leigh Star, é uma obra fundamental nos campos dos Estudos de Ciência e Tecnologia (STS), Sociologia do Conhecimento e Ciência da Informação. O livro investiga o papel invisível, porém imensamente poderoso, que os sistemas de classificação e os padrões desempenham na organização da sociedade moderna, na infraestrutura tecnológica e na vida humana.

1. Introdução: "Classificar é Humano" e as Premissas Teóricas

Os autores partem da premissa de que a classificação é uma atividade humana universal e inevitável: agrupamos coisas e ideias para dar sentido ao mundo. No entanto, nas sociedades modernas, esses sistemas tornaram-se embutidos na nossa infraestrutura tecnológica e burocrática, tornando-se invisíveis à medida que são naturalizados.

Bowker e Star dialogam com a obra de Michel Foucault (especialmente sobre a ordem do discurso e o poder disciplinar), mas argumentam que é necessário ir além do nível puramente discursivo para examinar empiricamente como essas categorias são codificadas em computadores, prontuários, formulários de censo e bancos de dados globais. Adotando uma abordagem do pragmatismo americano (baseada no teorema de Thomas), os autores afirmam: "coisas percebidas como reais são reais em suas consequências". Se uma categoria de classificação é criada, ela gera consequências materiais e morais profundas para aqueles que são afetados por ela.

Conceitos-Chave da Obra:

  • Inversão Infraestrutural (Infrastructural Inversion): É a ferramenta metodológica proposta pelos autores. Consiste em "olhar para trás" das tecnologias operantes, abrir a "caixa-preta" das ferramentas burocráticas e técnicas comuns para revelar os conflitos políticos, as negociações sociais e as escolhas valorativas que foram sepultadas sob a aparente neutralidade da infraestrutura.

  • Torque (Torção): Ocorre quando a trajetória biográfica de uma pessoa ou uma prática local complexa entra em conflito direto com uma categoria de classificação rígida e padronizada. A tentativa de forçar a realidade fluida de uma vida dentro de uma "caixa" burocrática inflexível gera uma torção (sofrimento e distorção).

  • Objetos e Infraestruturas de Fronteira (Boundary Objects / Infrastructures): Conceito clássico de Star. São objetos ou sistemas flexíveis o suficiente para serem adaptados às necessidades locais de diferentes comunidades de prática, mas robustos o suficiente para manter uma identidade comum entre elas, permitindo a coordenação e a cooperação sem a necessidade de um consenso absoluto.

  • Categorias Residuais ("Outros"): As categorias criadas para abrigar o que não se encaixa nas divisões ideais (como "Não Especificado de Outra Forma"). Elas revelam as limitações internas e os limites morais de qualquer sistema de classificação.

Parte I: Classificação e Infraestruturas de Grande Escala (Capítulos 2, 3 e 4)

Esta seção foca na CID (Classificação Internacional de Doenças), gerenciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como um exemplo supremo de infraestrutura de informação global.

  • A Tensão entre o Local e o Universal: Os autores analisam o desenvolvimento histórico da CID (desde as nomenclaturas de causas de morte de Jacques Bertillon no século XIX). Eles demonstram que, ao longo das revisões, as nomenclaturas perderam suas marcas geográficas e históricas locais. Por exemplo, termos antigos baseados em localizações geográficas como "Delhi boil" (botão de Deli) foram progressivamente substituídos na CID por categorias de agentes universais abstratos, como a Leishmaniasis. O preço da universalidade da informação é o apagamento das histórias locais de viagem e o contexto do paciente.
  • A Inércia da Base Instalada: Os sistemas de classificação carregam traços físicos e limitações de suas tecnologias passadas. A CID, por exemplo, manteve por muito tempo restrições de categorias numéricas (como o limite de 200 tópicos) porque precisava ser compatível com as tecnologias de cartões perfurados de meados do século XX.

  • A Disputa por Recursos e Agência: A classificação de doenças não é uma atividade puramente científica; envolve o Estado, seguradoras, epidemiologistas e médicos. Se a CID decide agrupar todas as mortes por Síndrome da Morte Súbita Infantil (SIDS) em uma única caixa rígida, ela economiza recursos de armazenamento de dados, mas dificulta que pesquisadores futuros recuperem dados específicos para identificar causas ambientais distintas. Há também conflitos morais/políticos, como as regras burocráticas históricas para registrar suicídios, abortos criminais ou natimortos, que variavam conforme os interesses criminais do judiciário ou dogmas religiosos de cada nação.

Parte II: Classificação e Biografia, ou Sistema e Sofrimento (Capítulos 5 e 6)

Esta parte examina o impacto direto dos sistemas classificatórios na vida íntima e na identidade dos indivíduos, ilustrando o conceito de torque.

  • Tuberculose e Trajetórias Temporais (Capítulo 5): Analisando a história dos pacientes com tuberculose em sanatórios (recorrendo tanto a estudos sociológicos clássicos de Julius Roth quanto à literatura, como A Montanha Mágica de Thomas Mann), os autores mostram como a medicina tenta abstrair o fluxo contínuo do tempo biográfico para categorizar a doença em estados fixos (ativo, passivo, latente). Para os pacientes, o sofrimento se dá na criação de "cronogramas" (timetables) institucionais rígidos que fragmentam o tempo em nome da eficiência burocrática do tratamento, gerando descompassos entre a experiência subjetiva da cura e a classificação oficial do hospital.
  • A Classificação Racial no Apartheid (Capítulo 6): Este é o caso mais brutal e explícito do livro. Sob o regime do Apartheid na África do Sul, a identidade humana foi rigidamente dividida em categorias legais (Branco, "De Cor"/Coloured, Nativo/Bantu, Asiático) que determinavam onde a pessoa podia viver, trabalhar e com quem podia se casar. Os autores detalham os processos burocráticos e os exames humilhantes de "reclassificação" a que as pessoas recorriam quando suas vidas eram destruídas por terem sido categorizadas incorretamente (como o famoso "teste do lápis" no cabelo). O caso demonstra como o Estado tenta forçar a continuidade genética e social da população dentro de caixas binárias arbitrárias puras, gerando imensa violência institucional e sofrimento existencial.

Parte III: Classificação e Práticas de Trabalho (Capítulos 7 e 8)

Bowker e Star investigam o mundo do trabalho, focando no esforço das enfermeiras americanas para criar a NIC (Nursing Interventions Classification) — a Classificação de Intervenções de Enfermagem.

  • O Dilema da Visibilidade: Tradicionalmente, o trabalho das enfermeiras envolve uma enorme quantidade de trabalho emocional, conforto físico e suporte sutil que permanece "invisível" para os sistemas de contabilidade dos hospitais, os quais tendem a computar apenas o trabalho prescritivo dos médicos (como cirurgias e remédios). Ao tentarem padronizar e criar códigos para as suas intervenções (como "ouvir ativamente" ou "dar apoio emocional"), as enfermeiras buscavam legitimação profissional e comprovação de seu valor econômico para a administração hospitalar.
  • O Preço da Padronização: Os autores apontam que a visibilidade através da classificação é uma faca de dois gumes. Ao codificar e mensurar o cuidado emocional em uma lista de tarefas formais e computáveis, o trabalho perde sua flexibilidade inerente. Ele passa a estar sujeito a métricas de vigilância, controle gerencialista, corte de custos e limitação de tempo. O que antes era uma prática fluida e intuitiva de cuidado torna-se uma linha em uma planilha burocrática.

  • Esquecimento Organizacional (Capítulo 8): Ao padronizar o conhecimento de uma profissão em um sistema computacional, há uma escolha deliberada sobre o que deve ser lembrado e o que deve ser ativamente esquecido. O conhecimento prático acumulado e informal que não cabe no código digital acaba sendo limado da memória oficial da organização.

Parte IV: Teoria e Prática das Classificações (Capítulos 9 e 10)

Na conclusão da obra, os autores unem os fios de seus estudos de caso para propor uma teoria integrada das infraestruturas de informação.

Eles argumentam que nenhum sistema de classificação na prática atinge a perfeição lógica e a exaustividade mútua exigida pela teoria clássica. Na realidade, todos os sistemas de grande escala bem-sucedidos operam como infraestruturas de fronteira, sobrevivendo graças a malabarismos práticos, remendos ad-hoc, tolerância a ambiguidades e ao uso estratégico de categorias residuais ("Outros").

Conclusão Geral - Por que as Classificações Importam?

As classificações importam porque elas constituem a arquitetura ética e política oculta do nosso mundo construído. Quando aceitamos um sistema de categorias como algo natural e inevitável, estamos aceitando implicitamente uma distribuição específica de poder, recursos e reconhecimento social que foi decidida no passado.

Bowker e Star concluem com um apelo para uma política da infraestrutura: cientistas da computação, legisladores, designers de sistemas e cidadãos precisam exercer uma responsabilidade ética ao projetar categorias, garantindo que haja espaço para a multiplicidade de vozes, flexibilidade para as trajetórias humanas e consciência sobre as consequências de "separar as coisas" (sorting things out).

A influência de Michel Foucault, e particularmente de sua obra As Palavras e as Coisas, sobre o livro Sorting Things Out de Geoffrey Bowker e Susan Leigh Star é profunda, estruturante e explicitamente reconhecida pelos autores.

 

Podemos dizer que Bowker e Star realizam uma "materialização" e uma "sociologização" da arqueologia de Foucault. Enquanto Foucault investiga as estruturas discursivas e abstratas do pensamento (epistemes) que determinam o que é possível conhecer em cada época, Bowker e Star pegam esse mesmo problema e o levam para o "chão de fábrica" da modernidade: os bancos de dados, os formulários burocráticos, os sistemas de computador e as práticas de trabalho.
Abaixo, detalha-se como essa influência se articula em conceitos-chave, continuidades e rupturas teóricas:

1. Da Episteme Abstrata à Infraestrutura Material

Em As Palavras e as Coisas, Foucault demonstra que a Idade Clássica organizou o mundo vivo através de uma grade taxonômica (o quadro ou tabela), cuja função era mapear identidades e diferenças. Essa grade operava como um inconsciente histórico: os naturalistas não escolheram pensar assim; a episteme da época impunha essa forma de ordenar o real.


Bowker e Star adotam essa premissa, mas deslocam o foco do discurso filosófico/científico para a infraestrutura tecnológica. Para eles, os sistemas modernos de classificação (como a CID ou os sistemas de computador) são os equivalentes contemporâneos das grades taxonômicas de Foucault. A diferença é que, hoje, essa ordem não está apenas no "espaço do saber", mas materializada em fios de cobre, códigos de programação, bancos de dados relacionais e burocracias estatais. Onde Foucault vê uma ordem discursiva, Bowker e Star veem uma ordem infraestrutural.

2. A Invisibilidade e a "Naturalização" da Ordem

Foucault argumenta que a episteme de uma época é invisível para aqueles que nela vivem; nós aceitamos certas divisões do mundo como "naturais" e óbvias. Em As Palavras e as Coisas, ele choca o leitor ao citar uma enciclopédia chinesa fictícia (de Jorge Luis Borges) que divide os animais de forma bizarra (ex: "que pertencem ao Imperador", "embalsamados", "sereias"), justamente para mostrar quão arbitrária e cultural é a nossa própria forma de classificar.
Bowker e Star herdam diretamente essa preocupação com a naturalização das categorias. Eles demonstram que, uma vez que um sistema de classificação (como as categorias raciais do Apartheid ou as divisões de doenças da CID) é codificado em leis e computadores, ele afunda no plano de fundo da vida cotidiana e torna-se invisível. As pessoas esquecem as disputas políticas e as escolhas morais que criaram aquelas divisões e passam a tratá-las como "a realidade pura". O método da Inversão Infraestrutural de Bowker e Star é uma clara releitura da Arqueologia de Foucault: ambos buscam escavar o que foi sepultado sob a aparência de neutralidade e obviedade.

3. O Poder de Nomear: A "Língua Bem-Feita" vs. Padronização do Trabalho

No capítulo 5 de As Palavras e as Coisas, Foucault conclui que a História Natural clássica buscava ser uma "língua bem-feita" — uma linguagem purificada que reduzisse o visível a caracteres exatos (forma, quantidade, situação, proporção), eliminando as ambiguidades da linguagem comum.
Esse conceito ecoa diretamente na análise que Bowker e Star fazem da NIC (Classificação de Intervenções de Enfermagem). As enfermeiras americanas, ao tentarem criar a NIC, buscavam exatamente o que os naturalistas de Foucault queriam: construir uma "língua bem-feita" para o seu trabalho. Elas queriam traduzir a complexidade fluida do cuidado de enfermagem em categorias discretas, padronizadas e computáveis ("ouvir ativamente", "apoio emocional") para que seu trabalho se tornasse visível para a administração. Bowker e Star usam Foucault para mostrar o paradoxo disso: criar essa linguagem traz legitimidade (visibilidade), mas também introduz o controle disciplinar sobre os corpos e o tempo das trabalhadoras.

4. Biopolítica e as Consequências sobre o Corpo (Torque)

Embora As Palavras e as Coisas foque na arqueologia do saber, o livro planta as sementes do que Foucault mais tarde chamaria de Biopolítica e Poder Disciplinar (o controle dos corpos e das populações pelo Estado através de saberes médicos e estatísticos).
Bowker e Star pegam essa vertente biopolítica e a aplicam empiricamente. No caso do Apartheid na África do Sul, a classificação estatal não era apenas um exercício lógico; era o poder do Estado decidindo burocraticamente a identidade biológica de um indivíduo. Quando a vida de uma pessoa não se encaixava perfeitamente na categoria legal, ocorria o que os autores chamam de Torque (torção): uma violência institucional em que o corpo e a biografia do indivíduo eram esmagados para caber na "caixa" burocrática. Esse é o poder-saber foucaultiano operando em sua forma mais nua e cruel.

Onde Bowker e Star se afastam de Foucault?

Apesar da forte influência, os autores fazem uma crítica metodológica a Foucault e complementam sua teoria com outra tradição: o Pragmatismo Americano e o Interacionismo Simbólico (da Escola de Sociologia de Chicago).

  • A Abordagem "De Baixo para Cima": Foucault tende a ser estruturalista em As Palavras e as Coisas; as epistemes mudam quase que por saltos enigmáticos e parecem determinar totalmente as ações humanas, vindo "de cima para baixo". Bowker e Star acham essa visão excessivamente determinista e abstrata.
  • Agência Humana e Resistência: Utilizando o pragmatismo, Bowker e Star focam nas práticas locais, nas resistências, nas gambiarras e nos acordos cotidianos que os seres humanos fazem para lidar com as classificações absurdas. Eles mostram que os sistemas nunca são logicamente perfeitos (como sugeriria uma leitura rígida de Foucault) porque as pessoas reais estão constantemente negociando os limites dessas categorias na prática médica, no trabalho e na burocracia.

Resumo da Conexão

Em suma, Foucault forneceu a Bowker e Star os óculos conceituais para enxergar que classificar nunca é um ato neutro, mas sim uma imposição de ordem indissociável do poder. Bowker e Star pegaram esses óculos e olharam para os computadores e formulários do século XX, demonstrando que a grande batalha política da nossa era não ocorre apenas nos discursos, mas nas infraestruturas de informação que silenciosamente classificam o nosso mundo.

deck

By Marcelo Stein de Lima Sousa

deck

  • 26